A Europa não pode esquecer quem vive no interior
A Europa vive tempos difíceis. Entre guerras, incerteza económica e decisões cada vez mais distantes das pessoas, cresce uma preocupação: que Europa estamos a construir? E haverá lugar para todos?
Enquanto Portugal discute o Orçamento do Estado para 2027, Bruxelas negoceia o orçamento europeu para 2028-2034. Fala-se de defesa, competitividade e milhares de milhões de euros. A presidência irlandesa propôs cortar 141 mil milhões de euros à proposta da Comissão. E a Ucrânia enfrenta necessidades de financiamento ainda por cobrir estimadas em 70 mil milhões para 2027.
Apoiar um povo em guerra é um dever de solidariedade. Mas será que, perante tantas prioridades, a Europa continuará a olhar para os seus territórios mais frágeis?
A coesão económica, social e territorial é uma das promessas fundadoras do projeto europeu: o lugar onde nascemos não deveria determinar as oportunidades que temos. É uma promessa que não podemos deixar transformar numa palavra bonita, repetida nos discursos e esquecida nas decisões.
As manifestações em França, Portugal e noutros países mostram o mal-estar de quem enfrenta salários curtos, habitação inacessível e um custo de vida que não dá tréguas. E se viver numa grande cidade é difícil, o que dizer de quem vive no interior?
No Nordeste Transmontano, o preço dos combustíveis pesa de forma particular. Onde faltam transportes públicos, o automóvel não é um luxo. É a única forma de chegar ao trabalho, à escola, ao hospital ou ao supermercado. Cada viagem custa dinheiro e tempo. Cada aumento aprofunda a distância entre quem tem alternativas e quem não as tem.
Conhecemos as famílias que veem os filhos partir, os idosos longe dos cuidados de saúde e os empresários que resistem apesar das dificuldades. Conhecemos o silêncio das aldeias onde antes havia crianças, escolas e vida. E sabemos quanto custa manter uma terra viva.
A política europeia de coesão não vai desaparecer, mas poderá mudar profundamente. A proposta prevê reunir fundos em planos nacionais e regionais, com garantias para regiões menos desenvolvidas. Ainda assim, fica a pergunta: quem decidirá onde investir? Terão os territórios de baixa densidade voz suficiente, ou ficarão novamente à espera do que sobrar?
Também o Orçamento do Estado português deve ser julgado por aquilo que muda na vida das pessoas. Não bastam anúncios de investimento. Precisamos de serviços próximos, mobilidade, emprego qualificado e condições para os jovens ficarem.
O interior não pede privilégios. Pede oportunidades, respeito e o direito de não ser esquecido.
A Europa precisa de proteger as suas fronteiras, mas também de cuidar de quem vive dentro delas. Porque nenhuma terra deveria ter de perder os seus filhos para lhes poder oferecer um futuro.
Se a coesão deixar de ser uma prioridade, o que restará do ideal europeu?
