A música que perdemos
Há uns anos, ouvir um disco implicava escolher o que queríamos escutar, colocá-lo a tocar e, muitas vezes, sentarmo-nos simplesmente a ouvi-lo. Hoje, temos milhões de músicas à distância de um toque no ecrã. Ouvimo-las no carro, no trabalho, enquanto caminhamos ou fazemos qualquer outra coisa. A música tornou-se uma presença tão constante que, por vezes, deixamos de reparar nela.
Há muito que penso nisto, sobretudo quando observo como nos habituámos a ouvir música através dos pequenos altifalantes dos telemóveis, sem grande preocupação com aquilo que estamos realmente a escutar.
Enquanto engenheiro de som e músico, conheço bem o cuidado que uma gravação exige, desde a captação e equilíbrio dos instrumentos até ao tratamento da dinâmica, da reverberação e da distribuição dos sons no espaço. São pormenores que fazem parte da identidade de uma obra e que nem sempre conseguimos reconhecer nas condições em que habitualmente a ouvimos.
Basta reproduzir a mesma música através de um telemóvel e de um sistema hi-fi para perceber como a experiência de escuta pode ser diferente. Descobrimos sons que antes mal se percebiam, instrumentos que pareciam escondidos, pequenas nuances da interpretação e uma sensação de profundidade que desconhecíamos.
Não é preciso gastar uma fortuna em equipamentos para perceber estas diferenças, até porque nenhuma aparelhagem, por melhor que seja, substitui a atenção de quem escuta.
Na obra A Sound Education (1992), o compositor e pedagogo R. Murray Schafer reuniu cem exercícios destinados a desenvolver a atenção aos sons do quotidiano, uma preocupação que continua atual numa época em que somos constantemente expostos a estímulos sonoros.
Já me aconteceu voltar a ouvir gravações que conhecia há anos e reparar, pela primeira vez, numa respiração antes de uma frase, num instrumento discreto ou na forma como uma nota se prolonga no espaço. Todos estes pormenores estavam lá desde a primeira audição, mas só mais tarde lhes prestei atenção.
A curiosidade pode levar-nos ainda mais longe, a querer saber quem são os músicos, em que circunstâncias foi feita a gravação ou que história existe por detrás da música que ouvimos.
Não tenho saudades do tempo em que era preciso procurar e esperar para conseguir ouvir um disco, mas receio que a facilidade com que hoje acedemos à música nos esteja a fazer esquecer o prazer de parar para a escutar.
Talvez valha a pena recuperar o hábito de escolher uma música, sentarmo-nos num lugar tranquilo e escutá-la do princípio ao fim, sem distrações.
E descobrir, quem sabe, que há muito mais para ouvir na música que julgávamos conhecer.
