Henrique Manuel Pereira (Universidade Católica Portuguesa, Escola das Artes)

O Cágado e o Chapeleiro: Um Enigma Junqueiriano

Não sendo o assunto principal, levei um desenho na mochila para Lisboa, com a consciência de quem transporta um enigma iconográfico. No ecrã da comunicação, perante uma plateia de estudiosos, a imagem de um cágado com rosto de poeta e carapaça de alfaiate fez-se silêncio. Era uma pequena charada de Bordalo Pinheiro, um “nó górdio” da nossa história literária que, durante quase um século, se recusou a ser desatado. Mas o segredo não estava na imagem; estava no nome.


Do tempo longo

Há dois anos, por estes dias, subi a Bragança para me despedir de Hirondino Fernandes. À saída da igreja da Misericórdia, quando o carro funerário começou lentamente a afastar-se, olhei em redor e pensei: Tão poucos.
Estava enganado. Os funerais pertencem ao tempo breve da despedida. As obras pertencem ao tempo longo.


Uma nova morada para Junqueiro

Uma língua afirma-se pelos livros que pode chamar seus. É essa a ideia que me acompanhou no passado dia 7 de julho, na Casa da Cultura Mirandesa, em Miranda do Douro, durante a apresentação da edição bilingue de “As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão e Oração à Luz”. A escolha da data não foi casual: cumpriam-se cento e três anos sobre a morte de Guerra Junqueiro.


O Cónego que Preferiu o “Nós”

Sem ruído, sem palco, sem reivindicação, sem o verniz useiro de certos clérigos. Assim recordo Aníbal João Folgado (1926-2010), o cónego Aníbal Folgado, nos finais da década de oitenta e nos primeiros anos da década seguinte. Para mim, foi um tempo alegre e feliz, como se tudo fosse intemporal e possível. Quase me convenço de que sou capaz de o descrever com pormenor forense. Digo quase, porque hoje, tenho a certeza de cada vez menos coisas.


Hirondino da Paixão Fernandes Vénia, gratidão e memória

(continuação da edição anterior)
Os livros falam sempre de outros livros. Também os seus volumes falam de outros volumes, livros, revistas, jornais, sítios eletrónicos. Deve entrar-se neles com demora e solenidade. Num vórtice de signos intertextuais, ecos, ressonâncias e vozes que se complementam, Hirondino Fernandes faz-nos partícipes dum diálogo vivo. Aqui e ali, em relances fugidios, vislumbram-se ações e engenhos de detetive ou caçador. A sua obra não é exibicionismo de recolector erudito. É partilha de uma viagem pela substância do tempo.


Junqueiro e a festa da Margarida

Margarida Valle, conceituada e muito estimada bailarina portuense, depois de uma notável carreira nacional e internacional, achou por bem partilhar o seu saber, fundando, para o efeito, um Estúdio de Dança. No passado fim de semana, sábado e domingo, no auditório do Conservatório de Música do Porto, o Estúdio de Dança Margarida Valle celebrou mais um aniversário: 33 anos a formar, com invulgar sensibilidade, rigor técnico e artístico, várias gerações de bailarinos.


Manuel Sardenha Poeta, Padre e Republicano (I

Terá sido por meados do decénio de 90 do século passado que me encontrei com ele; melhor dito, que dei com o nome dele. Foi isso ao mergulhar num pequeno jornal literário, publicado em Coimbra, com o subtítulo “Microcosmos literário”, pitorescamente batizado pelo seu diretor, João Penha, de A Folha. Ali publicou Guerra Junqueiro, com 18 anos acabados de fazer, uma extensa composição poética, em cinco partes, com o título O livro de um doido (Excerto). Foi, de resto, a primeira composição que publicou em A Folha e a única em que usou pseudónimo (Vasco Hermínio).


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