José Rodrigues: O Barro de Trás-os-Montes e os Inéditos de Junqueiro
A humanidade é seara imensa em chão de areia,
Que Deus recolhe e Deus semeia.
(Guerra Junqueiro)
A humanidade é seara imensa em chão de areia,
Que Deus recolhe e Deus semeia.
(Guerra Junqueiro)
Sem ruído, sem palco, sem reivindicação, sem o verniz useiro de certos clérigos. Assim recordo Aníbal João Folgado (1926-2010), o cónego Aníbal Folgado, nos finais da década de oitenta e nos primeiros anos da década seguinte. Para mim, foi um tempo alegre e feliz, como se tudo fosse intemporal e possível. Quase me convenço de que sou capaz de o descrever com pormenor forense. Digo quase, porque hoje, tenho a certeza de cada vez menos coisas.
(continuação da edição anterior)
Os livros falam sempre de outros livros. Também os seus volumes falam de outros volumes, livros, revistas, jornais, sítios eletrónicos. Deve entrar-se neles com demora e solenidade. Num vórtice de signos intertextuais, ecos, ressonâncias e vozes que se complementam, Hirondino Fernandes faz-nos partícipes dum diálogo vivo. Aqui e ali, em relances fugidios, vislumbram-se ações e engenhos de detetive ou caçador. A sua obra não é exibicionismo de recolector erudito. É partilha de uma viagem pela substância do tempo.
Margarida Valle, conceituada e muito estimada bailarina portuense, depois de uma notável carreira nacional e internacional, achou por bem partilhar o seu saber, fundando, para o efeito, um Estúdio de Dança. No passado fim de semana, sábado e domingo, no auditório do Conservatório de Música do Porto, o Estúdio de Dança Margarida Valle celebrou mais um aniversário: 33 anos a formar, com invulgar sensibilidade, rigor técnico e artístico, várias gerações de bailarinos.
“Apaga a luz e dorme, filho!” Julgava eu que a luz da pequena lanterna quadrada – a mesma que usava para ir à fonte, descer à adega ou encandear pardais nos medeiros de palha, não se via por debaixo dos cobertores. Talvez não se visse e minha mãe, por força da reincidência, a adivinhasse.
Terá sido por meados do decénio de 90 do século passado que me encontrei com ele; melhor dito, que dei com o nome dele. Foi isso ao mergulhar num pequeno jornal literário, publicado em Coimbra, com o subtítulo “Microcosmos literário”, pitorescamente batizado pelo seu diretor, João Penha, de A Folha. Ali publicou Guerra Junqueiro, com 18 anos acabados de fazer, uma extensa composição poética, em cinco partes, com o título O livro de um doido (Excerto). Foi, de resto, a primeira composição que publicou em A Folha e a única em que usou pseudónimo (Vasco Hermínio).
Gosto de livros. Gosto de oferecer livros e gosto que mos ofereçam. Gosto que os meus amigos os publiquem e gosto que gostem, que tenham “proa”, nos livros que publicam. Assim escrevi eu aqui há dias. Hoje acrescento: gosto deles honestos, não necessariamente verdadeiros, mas honestos, escritos por homens ou mulheres com coluna, capazes de escrever o que pensam ainda que o que pensam não caiba nos códigos vigentes.
Há tempos arredado das letras, retomo hoje a lavra, tímido, mas teimoso, como quem sem saber para onde ir ou começar tem um dever para com a sua herança.
Sabem os meus amigos que “Dom Quixote de la Mancha” é provavelmente o meu livro, o que levaria para a “ilha”, o que gostaria de ter escrito, podendo morrer no instante a seguir, com os olhos a rir e a assobiar, enquanto o fôlego me assistisse, o “Gabriel’s Oboe” de Morricone. Mas uma coisa do livro me anda atravessada e só me dei conta disso há pouco tempo.
