Armando Fernandes

 

 

Requiescat in pace

No intuito de combater a pandemia o governo decidiu impedir os vivos de no dia 2 de Novembro visitarem, chorarem, e honrarem os seus familiares, os seus saudosos entes queridos enterrados nos cemitérios, no intuito (impulsivo…) de combater a pandemia. Apesar de nesse mesmo dia os governantes irem lembrar as vítimas da peste é um acto arriscado porque toca na sensível lembrança dos membros nucleares de cada um (pais, avós, irmãos, tios e primos), os quais escolhiam a data para (pelo menos) uma vez em cada ano publicamente lhe renderem preito.


Sem cara de póker

No tempo em que jogava póker aberto (sintético) no Clube de Bragança não conhecia (como desconhecia muitas outras coisas atinentes a tudo em geral e ao sisudo jogo em particular) a expressão cara de póker, até estou convicto de nenhum dos parceiros habituais (não revelo os nomes no fito de não ferir susceptibilidades familiares) a alguma vez a tivesse ouvido, muito menos empregue. Naqueles anos sessenta do século passado os jogadores no e do Clube eram atreitos a explosões de ira quando as malvadas cartas não dobravam e desbaratavam as caves dos apostadores.


O universo da Justiça

A primeira representação imagética que me acode da Justiça é a da figura corpulenta, de olhos esbugalhados e mãos a denunciarem espanto, desespero e revolta do genial Orson Welles no filme inspirado na obra-prima de Franz Kafka, O Processo.


Jornal cor-de-rosa

Morreu Vicente Jorge Silva! Para desgosto meu e de inúmeros admiradores mesmo quando causava irritação, até fúria.
O Vicente conseguiu desencravar o título – Comércio do Funchal – causando sensação pela sua cor de truta salmonada e conteúdos tratados de forma a desagradarem à censura e polícia política salazarista.


Rufar de tambores

Há semanas escrevi e foi publicado neste jornal um artigo intitulado Liderança (Lideranças onde abordava a próxima eleição da equipa que irá gerir a CCDRNORTE). O artigo, tal como outros da minha lavra suscitou reacções, uma delas de um velho e estimado amigo a determinada atirou arguta observação: «olha lá, no teu artigo Liderança o perfil da personalidade que preconizas para desempenhar o lugar de máximo responsável da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento do Norte assenta como uma luva no Engenheiro António Jorge Nunes. Acertei?


O acre e o doce

Na penúltima edição do Mensageiro duas notícias proporcionaram-me dores distintas: uma acre, amargosa, biliosa de um fel de dor descarnada do corpo, a outra de uma doçura a conceder-me alegria originada pela perpetuação da memória do ente querido falecido no mês de Outubro do ano transacto. As duas notícias tresandam a morte, acicatam a realidade – não somos imortais –, bem no fundo o nosso egoísmo lembra o de Matusalém, por isso mesmo, está-nos vedado sabermos o dia da nossa despedida da Terra, não fossemos terra, cinzas, pó, nada mais.


A Dona Alegria

Vestia e pintava-se dentro do colorido mexicano – verde, amarelo, vermelho –, por isso, a sua figura excêntrica a considero digna de figurar num quadro de outra magnificente extravagante mulher, a pintora de sobrancelhas cabeludas Frida Kahlo. A Dona Alegria não fazia mal a uma mosca que aterra-se no seu rosto carregado de pós-de-arroz, rouge e tinta preta nos sobrolhos. Às vezes desandava da cidade indo para a casa do irmão, em Lisboa, o discreto general Neto, figura da corte salazarista.


Autenticidade. Autenticidades

egundo este jornal o responsável pelo Turismo do Porto e do Norte de Portugal foi a Rio de Onor em viagem de promoção turística, como não podia deixar de ser botou faladura, patati-patatá generalista pós prandial e, num assomo de genialidade retirada do manual do Senhor de la Palice, proclamou: autenticidade é o melhor argumento para atrair turista nacional.


A perigosa estupidez

Tratados sobre a estupidez há muitos, desde ensaios profundos, graves e reflectidos até aos jocosos e obscenos passando pelos de aforismos, citações e os escorados em romances, o monumental O Homem sem qualidades é paradigma disso mesmo, ou de índole filosófica, religiosa e sociológica. Se a estupidez individual assusta, a das multidões amedronta muito mais. O pensador Gustave le Bon (século XIX) em A Psicologia das Multidões explicita o tema e alude às consequências quando o poder da multidão mexe no pote do arbítrio, da demagogia e da exploração das desigualdades sociais.