Manuel António Gouveia

O Feliciano

Era uma vez o Feliciano. Filho de um pequeno e perdido lugar nas arribas do alto Sabor, a casa onde nasceu era um buraco semiescuro – térreo, de telha-vã, de onde o fumo se escoava através de uma bueira que também deixava entrar: a chuva, o vento, a coada luz do dia e a neve.
Mal nasceu, o Feliciano foi embrulhado num avental esburacado de uma avó e posto num caixote de sabão, ao pé da lareira, ali ficando sozinho, durante largas horas, enquanto os pais vergavam ao peso do trabalho.


A competição

A competição é uma atitude voluntariamente assumida por dois ou mais contendores que, conforme o teor, a abrangência e o valor da contenda, assim vai revelando os caminhos que percorre e traduzindo diferentes resultados que poderei sintetizar em três categorias: inofensivos (há uma competição natural que parece não prejudicar ninguém); graves e muito graves. Estes são de tal ordem, que avassalam a Humanidade, e poderão contribuir, para, nalguns casos, fazê-la desaparecer, pela sua força, ameaça e determinação em destruir o Planeta que a suporta.


A árvore solitária

Era a única árvore no cimo do monte: grande, frondosa, magnífica, algo arrogante, enquanto acolhia de bom grado quantas aves a procuravam para nela fazerem os ninhos, criarem os filhos, entoarem alegres canções, acompanharem o balouçar dos ramos embalados pelo vento, enquanto davam a saber que ali havia vida e alegria. Debaixo dela, à sombra, descansavam coelhos, lebres, perdizes… e, de onde em onde, alguma estonteada e cambaleante raposa que, perseguida pelo sol abrasador, ali descansava e adormecia até retomar forças.


As Autárquicas 2021

Porque as eleições autárquicas de 26 de setembro passado, deste ano de 2021, evidenciaram algumas surpresas, não deixam de merecer-me algumas considerações.
A primeira nota a assinalar foi, como temos vindo a constatar, de eleições para eleições, a forte abstenção do eleitorado, apesar do apelo ao voto vindo de todos os quadrantes, com a relevância que lhe foi dada pelo senhor Presidente da República.
Depois, é de assinalar a forma como as eleições decorreram: sem incidentes graves a registar, como é apanágio do povo português.


A árvore que não dava frutos

O senhor Augusto andava desmoralizado por causa daquela árvore. Mas, embora desmoralizado, acarinhava uma forte esperança de que ela, um dia, havia de oferecer-lhe os belos e suculentos frutos que alguma vez pensou saborear.
Tinha sido escolhida num viveiro muito afamado cujas plantas, depois de transplantadas e crescidas, eram um encanto, tanto pelo seu aspeto harmonioso como pela fecundidade e deliciosos frutos.


Lágrimas da Natureza

Naquele domingo de verão, ao fim da tarde, tudo estava calmo. Não bulia a folha das árvores, nem se via o habitual voo das aves.
O céu apresentava-se cinzento, mostrando, de onde em onde, consideráveis espaços soturnos, prenunciando alguma tragédia!
O ar abafava, o calor não podia suportar-se, e nem uma suave brisa corria para amenizar esta pesada situação!
Ninguém nas ruas. Nos campos, a vida parou.
Toda a gente, nas suas casas, estava suspensa, à espera do que iria acontecer; e os mais devotos desfiavam, nervosos, as contas do rosário.


O protesto

Não há dúvida de que protestar é uma condição de quem se vê contrariado no seu modo de estar e de fazer; de quem se vê privado da liberdade de agir a seu bel-prazer; e de quem entende que determinada imposição não cabe na lei ou, na falta dela, nos costumes e tradições. Contudo, falando da privação da liberdade, nunca é demais afirmar que a liberdade de cada um acaba no momento em que essa liberdade vai interferir com a liberdade dos outros.


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