Ernesto Rodrigues

ODISSEIA

Se compararmos a antroponímia e geografia da Ilíada e da Odisseia, aquela tem o dobro de nomes próprios e lugares. Além, Homero microbiografa heróis e menos conhecidos que se aventuraram no vasto dorso do mar até Tróia e que a negra terra ou véu da morte chamou, imagens alternando com a noite cobrindo os seus olhos. Segundo Agamémnon, nem as crianças de peito deviam escapar, e tal violência atinge os próprios deuses, com Diomedes ferindo Ares e Afrodite.


DAS FRAGAS AO MAR

Augusto Gil, Pessoa e Alberto Caeiro, Mário de Sá-Carneiro, Régio (entre outros), eis leituras díspares numa cidadezinha de província, no seu tic-tac de «tempo parado» ouvido em surdina na estreia de um então Eliseu Ferreira no Mensageiro de Bragança, que agora assina António Manuel e corre Das Fragas ao Mar (2026), em remissão limiar para Sebastião da Gama.


Os riscos da bibliometria

Academia.edu informa-me, todos os dias, de artigos meus lidos ou citados. Eu devia pagar o acesso aos dados, mas não estou interessado, pois vejo-me pouco ao espelho e nunca desejei competir na investigação, que tomo como obrigação imperiosa e serviço útil a outrem. Será isto suficiente para um reconhecimento que faça singrar na carreira? Quem reconhece essa utilidade, capaz de a distinguir de jogadas de bastidores?


Edição crítica de Os Lusíadas

Dedico o meu 10 de Junho a Luís de Camões, Os Lusíadas, edição crítica da princeps, por Rita Marnoto (Genève, 2022). O volume II reproduz o Poema a partir de 17 exemplares de 1572. Encerra com aparato crítico e bibliografia. Na língua do tempo, a leitura pede alguma demora e, para esclarecimento de dúvidas vocabulares, mitológicas, etc., convém ter ao lado uma boa edição escolar.


Liliputinar

Não devemos ter medo das palavras: Putin começou simpático e acabou ditador. Assim posso resumir conversa de há dias com o embaixador João Diogo Nunes Barata, que nos representou em Moscovo entre 2002 e 2004.
Putin é um ressabiado: acaba o curso de Direito na cidade natal, São Petersburgo, e entra no KGB, cujos herdeiros dominam, hoje, a Federação Russa. Os chefes não lhe reconhecem grandes qualidades, sendo destinado, pois, à tranquila Dresden, na República Democrática Alemã. Um espião de primeira viria para o Ocidente.


O poeta João Rodrigo

O final de 2022 fechou os olhos a figuras ilustres – o Papa emérito, Pelé –, mas, dias após um funeral de que soube pelo Carlos Pires, sofremos por João Rodrigo, recordado em velhas cumplicidades nascidas no Mensageiro de Bragança (MB).
Não verifico agora, na emoção do momento, o que sobre ele escrevi no semanário Tempo (Lisboa), em 25 de Janeiro de 1979. O artigo intitulava-se “Liberdade: a cor do homem”, e nesse tom o vejo, no dizer libérrimo, antes e após Abril de 1974.


Teatro, arte da respiração

No ano em que me estreei em livro (Inconvencional, poesia, 1973), escrevi a primeira de onze peças, agora reunidas em Teatro (Lisboa, Edição do Autor, 2021, 572 páginas). Era o sonho de uma arte participada por todos, como se exigia para uma diferente respiração nacional, politicamente moribunda. A Pedra metaforizava a opressão desse tempo, na figura de polícia que vem prender jovem universitário rebelde, escrevendo peça com o mesmo título, enquanto pai emigrante sufoca, sem perspectivas de amanhã, sob o cinismo do regime.


Oferta para Assinantes

Cartão Moeve