Antes do diagnóstico, está a pessoa
Na intenção de oração para outubro, o Papa Leão XIV pede uma Igreja que integre a saúde mental na sua pastoral, combatendo o estigma e acompanhando, sem julgamentos, quem sofre. “Faz com que a tua Igreja seja uma casa aberta, um espaço seguro onde todos tenham lugar”, assinala o Pontífice.
Há mais de cinquenta anos, nos bancos do Liceu, sentei-me ao lado de colegas com problemas de saúde mental. Eram, tantas vezes, os que ficavam à margem, incompreendidos, afastados, reduzidos a um diagnóstico ou a uma previsão de fracasso. “Nunca fará nada”, ouvi dizer. Como se o fazer valesse mais do que o ser de quem estava ao meu lado.
Ficou-me uma pergunta, o que fazemos nós de tão excecional para nos julgarmos no direito de decidir quem é normal, capaz ou digno de ser escutado?
Ao longo da vida, outras pessoas com doença mental cruzaram o meu caminho. Amigos verdadeiros que me ensinaram que cuidar também é saber olhar, escutar e estar. “Como tens tanta paciência?”, perguntam-me. “É recíproca”, respondo. “Porque todos precisamos, em algum momento, que alguém tenha paciência connosco”, remato.
Por detrás de cada diagnóstico há uma pessoa, uma história, uma família, ou ausência dela, medos e esperanças. Acolher não significa substituir os cuidados de saúde, mas não deixar ninguém sozinho diante do sofrimento.
Que a Igreja seja verdadeiramente uma casa aberta, sem estigma e sem portas fechadas. Antes de perguntarmos o que tem, talvez devêssemos perguntar, quem está aqui diante de mim?
Porque, antes do diagnóstico, está a pessoa.
