A opinião de ...

Brasil

Escrevo esta crónica no momento em que decorre o processo eleitoral no País irmão. Sim, País Irmão. Processo que diz respeito somente aos brasileiros. Todavia, com reflexos na identidade fraterna dos nossos Povos, sendo razoável apresentar algumas brevíssimas notas.
Primeira – A Língua Portuguesa, sempre renovada, enriquecida e divulgada pelos brasileiros mundo fora, tornando-a mais elástica. Para esta ductilidade contribuíram e contribuem, entre muitos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Aquilino Ribeiro, Saramago, Lobo Antunes, Craveirinha, Hirondina Joshua, Mia Couto, Luandino Vieira, Pepetela, Viriato da Cruz, Odete Semedo, Abdulai Silá, Alda Espírito Santo, Germano Almeida, Dina Salústio, Busa Metam, Ângela Viegas.
Com o Brasil, há motivos de interesse: o sambista Luiz Gonzaga, os artistas Chico Buarque, Maria Betânia, Caetano Veloso, Vinícius de Morais, as novelas brasileiras – tema estudado e cantado por Luca Argel (último disco O Homem Triste, por exemplo). Os encontros artísticos luso-brasileiros. Os refúgios políticos de Jorge de Sena e Agostinho da Silva face à ditadura salazarista. As frequentes visitas do escritor luso João de Barros ao Brasil. A criação dos estudos pessoanos em 2013 na Universidade de S. Paulo. O Prémio Camões, instituído pelos governos de Portugal e do Brasil.
Segunda – A colonização do Brasil começou logo após o descobrimento de Terras de Vera Cruz, pormenorizadamente descrito pelo cronista de bordo da frota de Pedro Álvares Cabral, Vaz de Caminha. Ali aportaram, ao longo dos séculos milhares e milhares de colonos portugueses. Logo, logo, a escravatura no Brasil, sistema que utilizou primeiro a mão de obra indígena e depois, de forma massiva, pessoas negras levadas do Golfo da Guiné. São conhecidas as diversas tentativas de revolta dos índios e dos negros africanos. Não é de estranhar que os negros tenham influenciado os costumes na Nação Brasileira, em especial na música e na dança. Registo também o papel dos jesuítas, em particular de Manuel da Nóbrega fundador da povoação Piratininga, hoje a pujante cidade de S. Paulo. Já no século XVIII, coronéis, fazendeiros, escravos, forças militares e mulheres sertanejas lutaram contra as investidas de franceses e holandeses.
Outro facto a recordar é o contributo de eminentes homens brasileiros, ainda durante o Império de D. Pedro I, designadamente José Bonifácio, considerado o Patriarca da Independência. Desta e de outras figuras de épocas mais recentes nos fala João de Barros (Adeus ao Brasil – Edição Livros do Brasil, 1961).
A chegada de italianos, polacos, alemães, espanhóis, japoneses, libaneses e outros contribuiu para a construção de uma Nação palpitante em que a Língua é denominador comum.
Eis alguns traços da génese de uma grande Nação.
Terceira – Stefan Zweig, notável escritor austríaco, fugido ao nazifascismo, refugiado no Brasil nos anos 40-50 do séc. XX, escreveu a obra Brasil, país do futuro (Livraria Civilização Editora, 6.ª edição, 1959): «Da maneira mais simples, o Brasil tornou absurdo o problema racial que perturba o mundo europeu». E valorizou a ausência de qualquer ódio na vida pública do Brasil. Será assim, hoje?
Quarta – A influência religiosa perturba a convivência social e política no País Irmão. É o que resulta dos factos claramente demonstrados pelo documentário fílmico da jornalista brasileira Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, apresentado, com sucesso, no Festival de Veneza de 2024. Para refletir num tempo eivado de ódios.

Edição
4110

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