A vida pede atenção
Saímos de casa convencidos de que havemos de voltar. Ficamos de telefonar mais logo, adiamos uma conversa para o jantar, fazemos contas ao que ainda falta cumprir. É dessa confiança discreta que se fazem os dias. Até que uma notícia nos lembra, com uma violência para a qual nunca estamos preparados, que o regresso não está garantido.
Foi o que aconteceu esta terça-feira, no IC5. Um camião resvalou para a berma, descontrolou-se e atingiu dois veículos que circulavam em sentido contrário. João Dinis Ramos, de 19 anos, perdeu a vida. Vila Flor recebeu a notícia com a consternação de uma comunidade onde a dor de uma família encontra muitos rostos conhecidos. Aos 19 anos, o futuro deveria ser ainda um território imenso de possibilidades.
As causas do acidente terão de ser apuradas pelas autoridades. Não podemos presumir uma distração nem associar o sucedido ao uso de um telemóvel. O respeito pelas pessoas envolvidas exige esse cuidado. Mas a fragilidade da vida, assim exposta numa estrada que tantos de nós percorremos, obriga-nos a pensar na atenção com que atravessamos os nossos próprios dias.
“É só um segundo”, dizemos. Um segundo para espreitar uma mensagem, procurar um contacto, mudar a música, responder a uma chamada. Repetimos pequenos gestos até nos convencermos de que dominamos todas as circunstâncias. A familiaridade com o caminho tranquiliza-nos. A pressa convence-nos de que podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo. E esquecemos que, na estrada, a nossa segurança depende também das decisões dos outros, tal como a deles depende das nossas.
As distrações acompanham-nos muito para além do volante. Sentamo-nos à mesa e pousamos o telefone entre nós. Ouvimos alguém enquanto os olhos procuram uma notificação. Estamos com os filhos, com os pais, com os amigos, mas uma parte da nossa atenção permanece disponível para tudo o que vem de fora. Às vezes, damos resposta imediata a quem está longe e deixamos à espera quem temos diante de nós.
Leão XIV falou deste perigo aos jovens reunidos em Tor Vergata, no Jubileu de 2025. Reconhecendo as possibilidades de encontro oferecidas pela Internet, alertou para os interesses que fragmentam as relações e para os algoritmos que procuram orientar aquilo que vemos e pensamos. Deixou uma advertência: “quando o instrumento domina o homem, o homem torna-se um instrumento”.
É uma observação que também nos diz respeito a nós, adultos. A educação para o uso das redes sociais começa no exemplo de quem pede aos mais novos que larguem o ecrã. Torna-se difícil ensinar a escutar quando interrompemos uma conversa a cada vibração do telefone. Ou pedir prudência quando tratamos as nossas próprias distrações como exceções sem importância.
Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, o Papa voltou a chamar a atenção para mecanismos digitais que favorecem reações rápidas e dificultam o tempo necessário para compreender e refletir. Talvez precisemos de recuperar alguns gestos simples. Guardar o telefone antes de arrancar. Parar em segurança quando é necessário tratar de um assunto. Respeitar o cansaço. Escutar uma pessoa até ao fim. São decisões pequenas, ao nosso alcance, pelas quais assumimos responsabilidade pela vida que partilhamos.
À família de João Dinis Ramos e a todos os que o amavam, deixamos uma palavra de força e a solidariedade do Mensageiro de Bragança.
Ao Papa Leão XIV, que atravessa um período de recuperação após a cirurgia a que foi submetido, dirigimos igualmente a nossa proximidade e os nossos votos de restabelecimento.
