Estudantes guineenses ouvem apelo de Simões Pereira à construção do futuro do país
Domingos Simões Pereira, presidente eleito da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, entretanto dissolvida, deixou uma mensagem de confiança aos estudantes guineenses em Bragança, desafiando-os a investir na formação e a contribuir para o futuro do país, apesar da instabilidade política.
O dirigente participou, na quinta-feira, 8 de outubro, numa conferência sobre juventude e participação cívica e política, organizada pelo Núcleo de Estudantes Guineenses na Universidade Politécnica de Bragança (UPB).
“Temos que ser resilientes, temos que acreditar”, afirmou, em declarações ao Mensageiro à margem do encontro. Aos jovens, pediu empenho nos estudos e que procurem ser os melhores nas áreas que escolheram, porque “o país vai sempre precisar” dos seus conhecimentos.
Simões Pereira destacou também o papel da diáspora, que considera “uma reserva moral, financeira, económica e cultural” da Guiné. No caso dos estudantes, acrescentou, o contacto com outras realidades e a aquisição de conhecimentos podem ajudar a transformar as comunidades de origem, através da partilha dessas experiências com as famílias e a sociedade.
Para Rajik Mendes, presidente do Núcleo de Estudantes Guineenses, a iniciativa permitiu “promover o debate com uma personalidade com experiência política, diplomática e de trabalho com jovens”.
Segundo o mesmo responsável, foi a primeira visita de Simões Pereira a Bragança e o primeiro encontro desta dimensão promovido pelo núcleo, que habitualmente organiza atividades dirigidas aos seus membros e à comunidade académica.
“Saímos fora da caixa”, explicou, sublinhando a intenção de mostrar que Bragança é uma cidade “que acolhe estudantes de diferentes origens e uma comunidade guineense expressiva”.
Rajik Mendes estima que existam cerca de 200 estudantes guineenses nas várias escolas da instituição, incluindo em Mirandela e Chaves, constituindo, segundo indicou, “a segunda maior comunidade africana, depois da cabo-verdiana”.
A integração académica é uma das principais preocupações do núcleo. O dirigente apontou dificuldades nas competências tecnológicas e linguísticas, associadas às fragilidades do ensino no país de origem, e adiantou que está a ser articulado com a UPB um plano de trabalho para melhorar o acompanhamento destes estudantes.
Orlando Rodrigues, Reitor da Universidade Politécnica de Bragança, identificou igualmente as desigualdades na preparação escolar e as dificuldades económicas como os principais obstáculos.
Embora existam estudantes guineenses com muito bons resultados, explicou, a formação recebida no ensino básico e secundário é desigual, o que exige apoio na recuperação de aprendizagens nas ciências básicas e nas competências linguísticas e digitais.
A instituição disponibiliza formação complementar nestas áreas, além das aulas regulares, mas Orlando Rodrigues defendeu que seria desejável um maior acesso a bolsas de estudo.
“Sem formar quadros, sem formar pessoas, sem formar técnicos, o país também não se vai desenvolver”, afirmou, considerando que apoiar a qualificação dos jovens guineenses é contribuir para o futuro da Guiné-Bissau.
A instabilidade política condiciona também o regresso dos diplomados. Rajik Mendes, que está a concluir um mestrado em Tecnologia e Ciência Animal, contou que chegou a ponderar voltar ao país depois da formação, mas acabou por permanecer em Portugal e continuar os estudos por não encontrar condições e oportunidades para regressar.
Orlando Rodrigues revelou ainda que uma visita de representantes dos politécnicos portugueses à Guiné-Bissau, destinada a desenvolver parcerias, não teve continuidade. Segundo explicou, a situação política e a fragilidade das instituições guineenses dificultaram o diálogo necessário para concretizar a cooperação.
No plano político, Simões Pereira apelou às entidades que controlam a Guiné-Bissau para que deem sinais de compromisso com a reposição da normalidade constitucional. Questionado sobre o risco de os militares permanecerem no poder, como aconteceu em países do Sahel, respondeu: “Espero que não”.
O dirigente disse também desconhecer as condições de um eventual regresso ao país, quando se aproxima o fim do período de três meses autorizado para permanecer em Portugal. Sobre a sua detenção, que considera ter sido um sequestro, reiterou que foi “não só ilegal como arbitrária”.
