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Balsamão: onde a memória se encontra

Há lugares que ajudam a compreender melhor aquilo que somos. O Convento de Balsamão é um deles. Situado em Chacim, no concelho de Macedo de Cavaleiros, é simultaneamente espaço religioso, património cultural e lugar de encontros. A presença dos Marianos em Balsamão remonta a 1754. Um lugar marcado pela espiritualidade, pela história e pela paisagem, que nos convida à reflexão e à memória.

Foi precisamente ali que participei nas 29.ª Jornadas Culturais de Balsamão, este ano dedicadas ao tema “A Festa em Trás-os-Montes: entre o Sagrado e o Profano”. As Jornadas começaram em 1998, por iniciativa do padre José Manuel Morais, e realizam-se anualmente, reunindo diferentes olhares sobre a cultura e a identidade transmontana.

Apresentei um trabalho sobre a Feira das Cantarinhas, de Bragança. Mas fui também para ouvir e aprender. Assisti às apresentações sobre a Feira de São Pedro, em Macedo de Cavaleiros, e sobre os Gorazes, de Mogadouro. Todas mostram como feiras e festas são lugares de encontro, economia, fé, sociabilidade e identidade.

O programa foi rico porque não olhou para a festa como simples entretenimento nem como tradição parada no tempo. Falou-se de religiosidade, romarias, festas, feiras, memória, cultura e território. Cada comunicação acrescentou uma peça ao mosaico da nossa identidade transmontana.

É também aqui que podemos falar de inteligência territorial. Um território torna-se mais inteligente quando conhece os seus recursos, valoriza a sua memória, liga pessoas e instituições e transforma conhecimento em capacidade de ação. Estas Jornadas aproximam conhecimento académico e saber local, criam ligações e ajudam-nos a compreender o território a partir daquilo que o torna singular.

Ao longo de 29 edições, não se limitaram a organizar conferências. Foram criando laços, aproximando investigadores e conhecedores do território e, sobretudo, deixando registo. Num tempo em que tanta informação é efémera, esta continuidade tem um enorme valor.

Preservar o património não é apenas conservar edifícios, objetos ou documentos. É também estudar, discutir, partilhar e transmitir conhecimento. Uma tradição permanece viva quando continua a ser compreendida por novas gerações. Por isso, é essencial aproximar os mais jovens daquilo que herdaram.

Saí de Balsamão com mais conhecimento e também com novas perguntas sobre a Feira das Cantarinhas. Esse é talvez um dos melhores resultados de um encontro cultural: entramos para partilhar o que sabemos e saímos conscientes de tudo o que ainda temos para descobrir.

Trás-os-Montes precisa destes lugares de encontro. Porque uma região não se perde apenas quando perde população. Perde-se também quando deixa de contar as suas histórias. E enquanto houver quem as estude, quem as partilhe e quem as transmita, continuará não apenas a lembrar o que foi, mas a construir, com memória, conhecimento e inteligência territorial, aquilo que quer ser.

Edição
4109

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