A opinião de ...

Livro memória e recuperação urgente da Capela

A Feira do Livro devolveu a Bragança algo maior do que livros, devolveu-lhe o gesto de afirmar que, neste interior profundo, também se lê, também se escreve, também se pensa, também se resiste. A Feira acendeu luz onde tantas vezes se supõem espessas sombras. Trouxe ficção, história, poesia, ciência, e trouxe, sobretudo, participação. Num país tantas vezes puxado para o litoral, lembrou que o interior não é margem, é centro de vida.
É nesse espírito que apresento o livro que recupera a memória da Estância de São Bartolomeu e de quem a sonhou. Um trabalho nascido no adro, ecoado na serra, partilhado em família e, que agora desce à polis para ganhar cidadania. Como lembrava Torga, “o resto é connosco”, e é connosco que este livro quer falar, com a comunidade que sobe ao monte para ver mais longe.
O Monte de São Bartolomeu guarda Bragança há séculos. No alto, a Capela ergue-se como sentinela antiga, mas o tempo, esse poeta brilhante e empreiteiro pouco fiável, deixou marcas que já não podemos ignorar. O livro é memória, sim, mas é sobretudo um instrumento, cada exemplar vendido contribui, agora na sua totalidade, para a requalificação urgente da Capela, cuja intervenção inclui a reconstrução da cobertura, o tratamento dos paramentos, a instalação de acessibilidade e a qualificação artística. O projeto está licenciado e pronto, falta apenas o financiamento que transforme intenção em obra.
Mas o Monte é mais do que a Capela. É um organismo vivo que pede cuidado em todas as suas partes, a casa dos mordomos, os coretos, o miradouro, os edifícios de apoio, as redes de água e saneamento, a iluminação que permita subir ao monte sem parecer expedição arqueológica. O Cabido fez o que lhe competia, inventariou, registou, conservou e, projetou. Agora, a responsabilidade é de todos nós.
E se menciono o escadório, é apenas como metáfora do caminho que ainda temos pela frente. A sua responsabilidade é municipal, mas a inspiração que nos dá é de todos nós.
Agradeço às instituições que têm mantido este património vivo, ao Município, às Freguesias, à PSP, aos grupos locais, à comunicação social da Diocese, ao Mensageiro de Bragança, à Paróquia de Samil, ao Cabido, ao Sr. Bispo e, sobretudo, ao povo brigantino, que nunca deixou de subir ao monte por fé, por tradição ou simplesmente para respirar fundo e lembrar-se de que a beleza existe. É essa fidelidade silenciosa que mantém o Monte de pé.
Este livro é mais do que homenagem, é apelo. Um apelo a cuidar, reconstruir e devolver ao Monte de São Bartolomeu a força e a dignidade que sempre foram suas. Que este seja o primeiro de muitos passos. Que o monte continue a erguer-se, firme, luminoso e nosso.

Edição
4091

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