DAS FRAGAS AO MAR
Augusto Gil, Pessoa e Alberto Caeiro, Mário de Sá-Carneiro, Régio (entre outros), eis leituras díspares numa cidadezinha de província, no seu tic-tac de «tempo parado» ouvido em surdina na estreia de um então Eliseu Ferreira no Mensageiro de Bragança, que agora assina António Manuel e corre Das Fragas ao Mar (2026), em remissão limiar para Sebastião da Gama.
É a minha derradeira leitura antes de fechar Literatura Portuguesa dos Séculos XX e XXI, que já foi Verso e Prosa de Novecentos (2000), na comum homenagem à terra natal, à infância que nos fez (mau grado «a demolição absurda da antiga capela do Senhor dos Passos»), ao Rio Tuela e à poesia.
Imagens fortes («vitrais de orvalho») distanciam o sujeito das palmas vulgares, que tudo confundem; sucede descaso nos céus, quando os anjinhos vivem de «artérias com vinho»; há muito frio, noite pesada ou «congelada», sinos que demoram «Na distante alvorada». Um descritivismo assente em índices tumulares impregna os seres feitos de «inquietude» e «solidão», sob epígrafe de carta depressiva de Pessoa a Sá-Carneiro (14-III-1916): «Em dias da alma […] De que cor será sentir?». Ritmos breves conduzem-nos para um regime de vida particular (até à fome, à falta de um «cibo», corpo e alma chagados) e política de abandono do interior português, mais ulcerado pela guerra – ultramarina, por exemplo.
Leio as veias de um tempo – o da saída destes textos no semanário diocesano; notem-se reiteradas «veias» articulando o texto –, que o tempo de hoje replica, entre liberal e proibitivo, sem expulsar o medo.
Os 12 poemas (de 38) finais esquivam a noite, aproximam-nos de rostos familiares, mas ainda conjugam fragas e mágoas do Nordeste com o bramar do oceano, donde, todavia, emergem «estrelas do mar». São declarações de amor, qual regresso à vida, em que se permite o bem-humorado espanto de lhe terem aparecido umas letras em poema «Sem alças, sem rima», e solução na distância irónica: «Mas olhem…/ Se lhes caírem as calças / Cheguem-nas acima…»
A diferença de décadas marca a produção de versos que sinalizam influências, estados anímicos, uma consciência viva do gesto lírico. Muitos de nós – incluindo quem prefacia, Fernando Calado – foram esse movimento antigo em 1971 e seguintes no Mensageiro de Bragança (onde Carlos Pires e Jorge Morais animaram a Tribuna dos Novos, e eu lancei As Palavras, dessas páginas emergindo a maioria destas sílabas), movimento que se fez pertinácia, exercício regular, até conquistarmos um frase certa ou imagem feliz. Encontramos estas em tão curto pecúlio de um velho amigo, entre Sebastião da Gama e saudades desse pré-Abril heróico.
