A opinião de ...

Cada sachada, sua minhoca

Ainda vai dar água pela barba a "refundação do INEM", tal como foi anunciada pela Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, no Parlamento.
As populações locais começam a organizar-se para lutar pelo direito à vida, que a retirada de meios de emergência da região vem colocar em causa. E não é só do helicóptero que se fala.
Desde logo, a presença de helicópteros de emergência médica no interior do país foi decidida, há décadas, precisamente pelas dificuldades que as populações aqui residentes têm no acesso a cuidados de saúde diferenciados e a meios de emergência.
Com três hospitais no distrito (Bragança, Mirandela e Macedo de Cavaleiros), em que apenas o de Bragança tem uma urgência médico-cirúrgica a funcionar, cerca de cem mil pessoas estão a descoberto de qualquer emergência, sejam elas acidentes (de carro ou de trator, como tantas vezes, infelizmente, acontece), ou ocorrências que, sendo simples, provocam desfechos fatais, como um engasgamento.
Saberá a Ministra da Saúde ou o presidente do INEM que um habitanto do concelho de Freixo de Espada à Cinta, por exemplo, demora mais tempo a chegar ao hospital de Bragança por estrada do que um brigantino leva a chegar ao Porto, na outra ponta do país?
É que, quando estas medidas são anunciadas, a ideia que fica é a de um completo desconhecimento das realidades dos cidadãos.
O helicóptero de Macedo de Cavaleiros foi o mais acionado do país, com 151 ocorrências registadas entre 1 de julho e 31 de dezembro, de acordo com dados recentes do próprio instituto.
Para além do helicóptero, em caiusa estará, também, a perda de capacidade de resposta instalada atualmente na região ao nível de ambulâncias.
Ainda na semana passada, a Ministra da Saúde (que nunca veio desmentir as declarações prestadas no Parlamento) veio juntar mais achas para a fogueira ao anunciar uma reforma da operacionalidade do INEM, ou seja, da forma como o socorro se processa. O objetivo à vista passa por entregar aos corpos de bombeiros a primeira resposta na generalidade dos casos no interior do país e fazer dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar meros motoristas, ou pouco mais e, desta forma, retirar poder a um sindicato que há pouco mais de um ao paralisou completamente o INEM.
Entre as medidas anunciadas estava, por exemplo, a cobrança de uma taxa aos hospitais pela transferência de doentes, o que pode pôr em causa a sobrevivência de doentes críticos pela dificuldade de pagamentos.
É caso para dizer que, da parte da senhora Ministra, cada sachada, sua minhoca nas medidas que vai anunciando a conta gotas. Alguém que a chame à razão.

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