As ruínas não rezam, lamentam-se
Ensimesmado na sua mesa de trabalho, trauteia, quebrando o silêncio de um Nordeste sem seminaristas, levados pela emigração e pelos berços vazios, o saudoso Abade de Baçal, Francisco Manuel Alves. Aponta agora chaves de leitura: “Meus saudosos amigos, já mandei estender a palha no curral, fazer a merenda e, encher o garrafão… mas sei que não vindes (…) manias de um ancião que vos não esquece.” Olho para ele, de “Diário da República” na mão, a fitar as ruínas de parte da sua antiga casa, a interrogar-se junto de um Juiz que teima em não falar: “Explica-me esta sentença pelo avesso”.
Falo do Despacho n.º 166/2026, que suspendeu o apoio aos Equipamentos Urbanos, matando o programa que desde 1979 financiava as TNS (Trabalhos de Natureza Simples). O oxigénio das nossas ermidas sumiu sem deixar rasto. “Fecham as contas e cortam-nos a fidalguia de bem receber”, suspira o Abade. “O Governo celebrou por cá a nova Universidade (UBNI). Louvável! Mas onde vão os doutores apreciar a nossa história se as ermidas se desfazem em caliça? Pedaço de asno quem acreditar que as honrarias de Lisboa douram a ignorância de quem deixa cair o património da terra.”
Em vez de lamentos, assine-se um Pacto de Reabilitação Coesa em que o Estado mantém o empurrão das antigas TNS, descentralizando dinheiros e gestão. Porque as ruínas não rezam, lamentam-se. Que o Senhor da messe envie novos operários para a Sua vinha, jovens que queiram assumir o altar e a escrita, herdando o testemunho da plêiade de sacerdotes que nos precederam.
Só com o património de pé voltaremos a banquetear ministros com o bom vinho e o presunto com toucinho de três dedos. “Abram a porta ao bom senso antes de tudo ruir”, refletia o Abade, como quem escreve um memorial sobre as cinzas, mas na esperança de que o madeiro volte a crepitar.
