A opinião de ...

A consequência esperada

Nas últimas semanas têm sido notícia as filas intermináveis nas urgências e consultas dos hospitais dos grandes centros urbanos, a falta de vagas nas escolas públicas e a escassez de professores, particularmente sentida na região de Lisboa. O hospital Amadora-Sintra, por exemplo, foi projetado para servir 300 mil pessoas mas já é procurado pelo dobro.

Estes são sintomas de um problema mais profundo: a concentração excessiva da população numa estreita faixa do litoral. Um resultado há muito esperado, tendo em conta as políticas de concentração que há décadas vêm sendo seguidas.

Durante décadas, Portugal assistiu à deslocação de pessoas, empregos e investimento para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Ao mesmo tempo, o interior perdeu habitantes, serviços públicos, atividade económica e capacidade de influência política. Ganhou apenas uma coisa: mato. Criou-se a ideia de que o país só poderia crescer a partir do litoral, centro da modernidade e das oportunidades, e que os restantes territórios deveriam limitar-se a gerir um declínio considerado inevitável.

Os resultados estão à vista. Nas áreas metropolitanas, as estruturas públicas deixaram de conseguir acompanhar o crescimento da procura. Os hospitais acumulam tempos de espera, as escolas não têm lugares para todos os alunos, faltam professores, que fogem de Lisboa como o Diabo da Cruz devido aos altos preços da habitação, os transportes estão sobrecarregados e as cidades perdem qualidade de vida, voltando os bairros de lata aos noticiários.

No interior, fecharam escolas, equipamentos de saúde subaproveitados e em risco, habitação a preços mais acessíveis e territórios que necessitam de pessoas para manter a economia, pois falta mão de obra para as empresas e IPSS. O desequilíbrio prejudica, portanto, os dois lados: cria pressão insustentável no litoral e acelera o despovoamento do interior.

Os dados recentes da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte trazem, ainda assim, um sinal de esperança. O distrito de Bragança conseguiu inverter a tendência de perda populacional e registou um aumento do número de residentes nos últimos anos. É uma mudança relevante num território habituado a perder população há várias décadas.

Esse crescimento, porém, foi conseguido sobretudo através da imigração e não pelo aumento dos nascimentos. Os cidadãos estrangeiros que escolheram viver e trabalhar no distrito estão a contribuir para sustentar empresas, instituições sociais, escolas e serviços. Mas pode ser sol de pouca dura pois o número de estrangeiros, sobretudo brasileiros, a querer regressar ao seu país depois do desencanto com Portugal, tem vindo a crescer nos últimos tempos.

O território precisa, sobretudo, de criar condições para que os jovens permaneçam, regressem e possam constituir família. Isso exige emprego qualificado, salários dignos, habitação, creches, escolas, cuidados de saúde e boas ligações rodoviárias, ferroviárias e digitais. Ou seja, investimento.

A solução para os problemas de Lisboa e do Porto passa por distribuir melhor a população, o emprego, os serviços do Estado e o investimento pelo território nacional.

Portugal não pode continuar dividido entre um litoral sobrelotado e um interior esvaziado. Uma distribuição mais equilibrada da população permitiria aliviar a pressão sobre as grandes cidades e, simultaneamente, devolver escala, dinamismo e futuro aos territórios de baixa densidade.
Repovoar o interior não é apenas um capricho de quem aqui vive. É uma necessidade nacional e uma condição para melhorar a qualidade de vida de todos os portugueses.

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