Porque é que a reabilitação da estrada de Vinhais é um erro
Há uma filmagem de Vinhais, penso que da primeira metade do séc. XX que vi há alguns anos, que me ficou na memória e à qual recorro frequentemente para ilustrar o que era o interior do país. Durante gerações, a ligação com Bragança foi uma estrada, no mínimo, “pitoresca”.
No evento da IL dos jovens ao interior, um dos palestrantes falou do efeito da “palhinha” na ligação entre 2 localidades. Fui investigar o que era esse efeito e tem até um prémio Nobel, o de Paul Krugman sendo que a base dessa teoria já era anterior. Essa teoria devia estar afixada na parede de todas as câmaras do interior (com a qualidade dos nossos presidentes de câmara tenho duvidas que saibam sequer quem é... mas isso é outra guerra). E o que diz essa teoria? Diz que quando se liga melhor uma povoação pequena a um centro maior, o fluxo não é simétrico. A cidade grande, tem mais e melhor escolha, mais escala, mais e melhores serviços, logo, tende a sugar da pequena aquilo que ela tem de mais valioso: população. É o efeito refluxo, ou, na gíria, o “efeito palhinha”.
O mais surpreendente é o papel da distância. Enquanto a estrada era má, o isolamento funcionava como uma proteção involuntária: médico, compras, escola, papelada era em Vinhais, porque a alternativa custava uma manhã inteira. A economia local sobrevivia, em parte, por defeito. Uma estrada muito melhor não elimina esta lógica, inverte-a.
Passa a compensar ir a Bragança para tudo aquilo que Bragança faz melhor, o mesmo aconteceu cá, quando se fez o IP4 quem tem mais de 30 anos, lembra-se bem que toda a gente falava em ir às compras ao Porto. E Bragança, como pólo muito maior, faz muita coisa “melhor” à escala de quem vive numa vila de pouco mais de dois mil habitantes.
O que vai acontecer? Eu digo-vos o que vai acontecer (daqui a 5 anos revisitem este artigo):
O consumo vai fugir. As compras de maior valor vão migrar para as superfícies de Bragança. O comércio da vila, já frágil, perde a pouca escala que ainda tinha.
Os serviços igual. É mais “eficiente” concentrar o médico, o advogado, o contabilista e o banco em Bragança e servir Vinhais de passagem. A presença local vai-se esvair.
A residência desloca-se. As poucas famílias jovens que resistem vão escolher viver onde há escolas, atividades para os filhos, e melhor emprego. A vila vai ficar bem ligada… e mais vazia.
O Estado central vai usar o acesso como desculpa. “Está a 25 minutos de Bragança” torna-se o argumento perfeito para fechar tudo o que resiste. A boa estrada acelera a retirada dos serviços públicos. Vimos isso pelo país todo, Vinhais não vai ser excepção. Obviamente, ocasionalmente, para fazer figura, vão inaugurar um serviço qualquer como fizeram em Tó, Mogadouro, com a inauguração dum terminal de pagamentos, com uma pompa que devia envergonhar todos os participantes, ou recentemente com o balcão do Banco de Portugal em Bragança.
Que fique claro: o problema não é a estrada, é a ordem das coisas. Pedir (e celebrar) a estrada primeiro, sem construir aquilo que segura pessoas e valor do lado de Vinhais, é pedir uma palhinha e apontá-la para fora. A pergunta certa nunca foi “queremos a estrada?”. É “o que pomos na outra ponta dela?”
Já alguém perguntou aos autarcas de Vinhais qual a estratégia de desenvolvimento da vila? Como vão desenvolver ou segurar os serviços lá? A população? Já algum deles ouviu falar de vantagens absolutas e de vantagens comparativas?
O que é que Vinhais tem para oferecer que Bragança não tenha mais e melhor?
Enquanto os autarcas e políticos nacionais continuarem a governar para o dia a dia sem haver uma visão do que querem a longo prazo, vamos continuar a tomar decisões sem pensar nas consequências das mesmas.
“Ah mas fez muita obra”, sem questionar as consequências das mesmas, ou qual é o intuito da mesma a prazo dentro da visão que se tem, isto se algum dia a tiveram. O importante é fazer, não importa o quê nem as consequências.
P.S. - Onde se lê Vinhais pode ler-se Vimioso.
