Pe. Manuel Ribeiro

Amar para além da utilidade

Há pessoas que vivem aterrorizadas pela possibilidade de deixarem de ser importantes para alguém. Não falam disso. Não o confessam. Mas carregam esse medo todos os dias. O medo de já não serem suficientemente interessantes. Suficientemente fortes. Suficientemente divertidas. Suficientemente necessárias para continuarem a ocupar um lugar no coração dos outros.
Talvez uma das maiores fragilidades humanas nasça exactamente aqui: na suspeita silenciosa de que o amor dos outros depende daquilo que conseguimos oferecer.


Às vezes é preciso perdermo-nos

Ouvi a frase dita sem solenidade: “Às vezes é preciso perdermo-nos.” Não vinha acompanhada de teoria nem de conselhos fáceis. Era quase um sussurro de quem já atravessou alguma coisa. Talvez por isso não a consegui ignorar.
Vivemos numa cultura que idolatra a orientação permanente. Tudo deve estar definido, mensurável, optimizado. Ter rumo é virtude. Hesitar é fraqueza. Perder-se é fracasso. Ensinaram-nos que maturidade é controlo e que estabilidade é prova de acerto.


Na vida, só precisamos de um xaile

Há momentos em que a vida não pede explicações nem soluções. Pede apenas presença, colo e alguém que fique. Talvez seja isso que, no fundo, procuramos quando tudo pesa: um xaile.
Há palavras que não se explicam. Acontecem. Chegam devagar, pousam em nós com cuidado e ficam. Há dias, uma senhora disse-me uma dessas palavras. Disse-a sem ênfase, sem intenção de ensinar, como quem partilha algo que sempre soube.
Disse-me que, no fundo, o que nós precisamos na vida é de um xaile.


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