Cumprir o potencial de uma das regiões mais agrícolas de Portugal
As comparações são sempre injustas mas não deixo de pensar nelas quando atravesso a fronteira para Espanha.
Seja no sul de Portugal, cruzando do Algarve para Sevilha, seja aqui mesmo, atravessando de Quintanilha para Zamora, o ordenamento da paisagem não poderia ser mais diferente.
De um lado, floresta desordenada, mato a perder de vista, campos ao abandono, ervas e arbustos a chegarem à beira da estrada. E. sobretudo, muito terreno abandonado, tomado pelo mato. Mesmo quando vejo fotografias de há 70 anos, esse contraste fica evidente, entre o que antes estava cultivado e o que agora está abandonado.
Do outro lado da fronteira, os campos parecem desenhados a régua e esquadro, com montes e vales aproveitados pela agricultura, a perder de vista.
Ora, se os dois povos são irmãos, se a estrutura geológica do terreno não é assim tão diferente, porque é que de um lado da fronteira a agricultura se desenvolve e do outro definha?
Na abertura da primeira edição da Feira Agrícola de Bragança (FAB), o vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDRN) para a agricultura, a estrutura que veio substituir a Direção Regional de Agricultura que estava sediada em Mirandela, disse que no total das 1192 candidaturas de jovens agricultores na região Norte, em 2025, 392 são das Terras de Trás-os-Montes, das quais 42 do concelho de Bragança.
Ora, numa região marcadamente rural, sem indústria que se veja (nem de ponta nem arcaica), com a quantidade de terra disponível, a mim parecem-me números claramente "poucochinhos", como diria António Costa.
Se o objetivo é criar condições para fixar os jovens nas terras que foram dos seus antepassados, estes números ficam muito aquém do necessário.
O que falta?
Falta muita coisa. Desde logo, a questão do acesso às terras. As nossas propriedades são dispersas e de pequna dimensão. Para conseguir apostar em alguma produção rentável o suficiente para o sustento de famílias, é preciso rever a forma como se organiza a terra em Portugal.
Por outro lado, falta água. O que, numa região do país com tantos rios, não deixa de ser irónico. A verdade é que a água só a vemos passar, a caminho do mar, e só tem servido para produzir riqueza para outros, que depois é retirada à força da região (veja-se o que acontece com as barragens, por exemplo).
Enquanto quem manda não se decidir claramente por uma política de aproveitamento da água enquanto a temos, seja criando reservas para o abastecimento às populações, o combate aos incêndios e, sobretudo, o aproveitamento agrícola, as pobras terras transmontanas dificilmente serão rentáveis para os agricultores.
Veja-se o que aconteceu no Alentejo e na explosão de investimentos que se seguiram ao Alqueva.
Como diria um querido amigo meu: "meu filho, investe em terra, que já não se faz mais..."
Por cá, essa máxima ainda não dá frutos...
