A opinião de ...

Às vezes é preciso perdermo-nos

Ouvi a frase dita sem solenidade: “Às vezes é preciso perdermo-nos.” Não vinha acompanhada de teoria nem de conselhos fáceis. Era quase um sussurro de quem já atravessou alguma coisa. Talvez por isso não a consegui ignorar.
Vivemos numa cultura que idolatra a orientação permanente. Tudo deve estar definido, mensurável, optimizado. Ter rumo é virtude. Hesitar é fraqueza. Perder-se é fracasso. Ensinaram-nos que maturidade é controlo e que estabilidade é prova de acerto.
Mas talvez o maior engano do nosso tempo seja confundir direcção com sentido. Há vidas perfeitamente organizadas e profundamente vazias. Há percursos irrepreensíveis que nunca tocaram o essencial. Pode-se cumprir todas as metas e, ainda assim, trair a própria verdade.
Há momentos em que a vida desmonta a narrativa que construímos sobre nós. Um projecto que falha quando parecia sólido. Uma relação que termina apesar do investimento. Um cansaço que deixa de ser passageiro e se torna estrutural. Tocamos no chão. E quando tocamos no chão, a tentação é dupla: desistir de nós ou regressar, rapidamente, ao mesmo lugar de sempre, só para não sentir o desconforto.
Mas e se o chão não for ruína? E se for revelação?
Perder-se não é dissolver-se. É deixar de sustentar uma identidade que já não corresponde ao que somos. É admitir que o caminho seguido talvez fosse apenas o mais previsível, o mais aceite, o mais cómodo. É suspender o automatismo.
Há perdas que nos empobrecem. Mas há perdas que nos purificam.
Perder-se no tempo, abrandar quando tudo exige pressa. Perder-se nos afectos, amar sem contratos emocionais blindados. Perder-se no silêncio, onde não há aplausos nem validação. Perder-se diante de Deus, quando deixamos de O instrumentalizar para os nossos projectos e aceitamos que não somos o centro da história.
Não se trata de romantizar o caos. Trata-se de reconhecer que insistir num caminho errado pode ser a forma mais sofisticada de cobardia. Há fidelidades que são apenas medo disfarçado.
Quantas escolhas mantemos por receio de desapontar? Quantas vocações adiamos porque já investimos demasiado noutro percurso? Quantas vidas se tornam coerentes por fora e infiéis por dentro?
Os novos caminhos não aparecem enquanto continuamos agarrados aos antigos. A transição exige ruptura. E a ruptura dói.
A tradição espiritual fala do deserto como lugar de verdade. Não é castigo. É desinstalação. No deserto caem as ilusões, desmoronam-se as imagens idealizadas, expõem-se as motivações ocultas. Não se fica no deserto. Mas ninguém atravessa o deserto igual a como entrou.
Às vezes é preciso perdermo-nos. Porque permanecer onde estamos pode ser a maneira mais elegante de nos traírmos. Não para nos destruirmos, mas para deixar cair o que nunca foi essencial. Não para dramatizar a queda, mas para compreender que o chão pode ser o início de um caminho mais autêntico. Não para abandonar a responsabilidade, mas para a assumir com verdade.
Talvez o verdadeiro drama não seja estarmos perdidos. Talvez seja nunca termos tido a coragem de sair do percurso que nunca nos conduziu à plenitude.
Se hoje te sentes desorientado, não te apresses a chamar fracasso ao que pode ser processo. Pode ser purificação. Pode ser maturação. Pode ser Deus a desmontar a versão reduzida que tinhas de ti próprio.
A pergunta não é se já te perdeste. A pergunta é esta: estás disposto a não regressar ao lugar onde aprendeste apenas a sobreviver?

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