Saúde e economia
Quem acompanha os escritos do cientista biólogo, historiador e filósofo, Yuval Noah Harari, fica entusiasmado com as suas pesquisas em torno de imensas questões de que destaco: qual a relação entre a Biologia e a História? Qual a diferença fundamental entre o homo sapiens [direi homo sapiens sapiens – o homem que sabe, que descobriu que sabe] e os outros animais? Há justiça na História? Será que as pessoas se tornaram mais felizes com o passar do tempo? Sobretudo as suas obras Sapiens – História breve da humanidade (edição de bolso, 2020, editora 20/20), e 21 Lições para o século 21 (9.ª edição, 2024, de Penguin Random House, Grupo Editorial) deixam abertura para uma reflexão. No domínio das decisões privadas e públicas, estamos perante um mundo em transformações muito rápidas, mas temos de obter respostas aos problemas que afligem hoje as pessoas.
Imaginemos, como refere Yuval: uma grande empresa pretende financiar um projeto de investigação sobre saúde. Surgiram dois projetos, fundamentados: um cientista deseja estudar uma doença que infeta os úberes das vacas, provocando uma perda de 10% na produção de leite. Outro cientista pretende analisar se as vacas sofrem perturbações mentais com a separação das suas crias. Todavia, um só projeto será financiado. Qual destes projetos de investigação será escolhido?
Outro exemplo, imaginário, sublinho: imaginário: os coordenadores de centros de saúde no interior do nosso distrito, Bragança, apoiados pelos respetivos presidentes de câmara, pretendem a dotação de um laboratório de análises e uma instalação de imagiologia segundo os requisitos que a categorização destes centros tipifica. O Ministério da Saúde somente pode financiar serviços desta natureza em regime ambulatorial, ou seja, viaturas dotadas destes equipamentos que circularão pelos dois concelhos para atendimento. Qual destas alternativas merecerá o apoio ministerial?
Claro que não há uma resposta científica para qualquer destas questões.
Certamente, no mundo atual, dominado pelo interesse económico, contudo, essencial, o primeiro caso teria mais hipótese de ser contemplado. Na segunda hipótese, ficaria privilegiada, pela mesma razão, a proposta ministerial.
Dá para refletir. Na verdade, a Saúde e a Economia andam juntas. Qual a prioridade a estabelecer? O que é mais importante e bom? Como refere este autor: «A ciência pode explicar o que existe no mundo, como funcionam as coisas, e o que o futuro poderá reservar-nos». Todavia, sabemos, a ideologia influencia a agenda científica.
A Saúde é fundamental para que os cidadãos se sintam felizes e saudáveis e as comunidades rural e urbana possam prosseguir na senda do desenvolvimento humano, social e sustentável.
A Economia é uma ciência de escolhas, face à escassez de bens, em ambientes que sofrem erosões de diversa natureza, onde o homem se tornou deus dominador e agressivo (Yuval escreveu também Homo Deus). Será que os homens se transformarão em deuses, senhores absolutos, vindo a ser, contudo, feridos de morte, como aconteceu a Agamémnon, figura central da tragédia de Ésquilo?
Onde o equilíbrio, onde as boas decisões? Olhemos à volta: o que andam a fazer as pessoas que nos governam?
