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O Cágado e o Chapeleiro: Um Enigma Junqueiriano

Não sendo o assunto principal, levei um desenho na mochila para Lisboa, com a consciência de quem transporta um enigma iconográfico. No ecrã da comunicação, perante uma plateia de estudiosos, a imagem de um cágado com rosto de poeta e carapaça de alfaiate fez-se silêncio. Era uma pequena charada de Bordalo Pinheiro, um “nó górdio” da nossa história literária que, durante quase um século, se recusou a ser desatado. Mas o segredo não estava na imagem; estava no nome.
Explico-me: fui à capital para dar conta da pólvora que Guerra Junqueiro queimou na polémica com Joaquim António Gonçalves, em resposta à receção furiosa do Finis Patriae. Esse poema, lançado no estertor de 1890, fora o grito de um país humilhado pelo Ultimatum Britânico. Dei conta do assunto, mas queria também ter abordado o enigma do desenho.
Como o relógio do congresso é um carrasco que apenas concede 15 minutos de vida a cada orador, meti o desenho de volta na mochila e regressei ao Porto. Afinal, Rafael Bordalo Pinheiro – que em “Os Pontos nos ii” desafiara os seus colaboradores a inverterem os papéis naquela semana de Carnaval – deixara ali um nó que exigia mais do que um simples “slide” para ser desatado.
Trata-se da ilustração “Struggle for sheet”, publicada a 5 de fevereiro de 1891. Ali vemos o nosso Junqueiro, em pleno Porto, transmutado: tem orelha espetada, bigode e o característico nariz adunco, emergindo de uma carapaça de tartaruga onde se lê “Junqueiro alfaiate – V. do Castelo”. Sobre este réptil, um chapéu alto desce por roldanas, sob uma legenda de morder: “O chapeleiro ameaçando: – Se efectivamente for… querelo”.
Ora, mestre José-Augusto França, que de Rafael Bordalo Pinheiro sabia o que a maioria toda junta ignorava, confessou em 1982 que este desenho o vencera: “Não se encontrou explicação... qualquer referência anedótica local que nos escapa”. Pois bem, a referência que escapou a França encontra agora, nesta crónica, a sua luz.
Em boa verdade, acabei por explicar a composição no texto destinado ao livro de atas. O que Junqueiro disse a Joaquim António Gonçalves – num tribunal de papel onde ele era, simultaneamente, vítima, acusador e juiz – qualquer hermeneuta com acesso ao documento explicaria. Eu não só tive acesso ao dito, como o disponibilizei em livro. Por conseguinte, limitar-me a isso seria, a meus olhos, pouco menos do que a chover no molhado, o que me é desconfortável. Afinal, é cada vez mais raro ouvir-se algo de novo sobre certos temas, uma lacuna que vai alargando o terreno dos “ossos do ofício” do mundo académico, onde repetir o que já foi dito parece, por vezes, mais cómodo do que procurar o que ainda não foi encontrado.
O segredo estava, de facto, no nome.
O opositor de Junqueiro era um industrial portuense com peso na praça, vindo a ser mais tarde deputado, mas conhecido por uma alcunha que desata o nó: Gonçalves Chapeleiro.
Eis a “chave”! Fialho de Almeida, no jogo editorial proposto por Bordalo Pinheiro, não estava a desenhar uma anedota obscura, mas a fixar o duelo entre o Poeta e o Chapeleiro. O “querelo” da legenda não era um simples trocadilho, mas o eco jurídico do tribunal discursivo que eu fora levar a Lisboa. Junqueiro transformara Gonçalves em réu; a caricatura transformava a sentença em espectáculo.
Juro e assino a jura: um dia destes, dando-me Deus saúde, lucidez e o conforto de umas boas pantufas, escrevo um livro inteiro dedicado aos mistérios junqueirianos. Fica, para já, este pequeno mistério. Afinal, foi há 176 anos, no passado dia 15, que nasceu Guerra Junqueiro – e ainda hoje há coisas dele à espera de serem descobertas.

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4106

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