A opinião de ...

A Arte como Valor (Parte III)

Pedro Abrunhosa afirmou o seguinte acerca da relação entre a máquina e o homem: “o processo criativo é uma descida aos infernos” (Entre a Arte e o Algoritmo, organização de Paula Cristina Cunha, editora Gradiva, 1.ª edição, Julho de 2026). O que pretendeu este cantor, letrista e compositor com esta afirmação? Defendeu, creio, que a Inteligência Artificial (IA) trabalha com milhões de milhões de dados, mas não cria nada, verdadeiramente nada; é o artista quem desenvolve ideias, com sacrifícios, com muitas horas de trabalho, um fazer e refazer. Da mesma obra, cito o grande escritor, Gonçalo M. Tavares (GMT): “A IA nunca está cansada”, pois responde sempre e sempre quando lhe colocamos questões. Mas não ‘pensa’, vai buscar os milhões de dados, dá respostas não ‘sentidas’.
Ora, o que concebem e constroem o cesteiro, o jardineiro, o escultor, o pintor, o ceramista, o arquiteto, o performista, o poeta, o romancista…? De facto, vão aos infernos num esforço de imaginação para concretizar a sua obra. Logo de seguida, ‘sobem aos céus’, porque conseguiram realizar o seu sonho de criatividade. Isto não é possível ser feito pela “ferramenta” IA. Por enquanto…Na mesma linha de pensamento, GMT, que escreveu Uma Viagem à Índia (segundo Eduardo Lourenço, uma das 50 obras mais importantes de sempre da literatura portuguesa) diz-nos que a escrita é um processo, é o fazer, é o construir. E coloca a seguinte questão: “os humanos não podem desistir de pensar”. Qualquer arte exige pensamento e esforço. A arte exige esforço, capacidade de imaginação e liberdade. É uma constante descoberta.
Volto-me para o meu amigo Manuel Tiago, jardineiro em Torre de Moncorvo. Ele encontra sempre uma solução, mesmo difícil para um determinado terreno da Edilidade ou de particular. O Marcolino, cesteiro afamado de terras de Miranda, pode repetir os modelos, mas está sempre imaginando detalhes. O grande escultor Amândio Nunes pega no cinzel e vai desbastando, dando sentido às palavras proferidas pelo Padre António Vieira no célebre texto em defesa dos índios do Brasil (O Estatuário, incluído no Sermão do Espírito Santo). Reparo na pintura de Josete Fernandes, de Mirandela, e imagino a IA a tentar reproduzir um dos seus quadros (por exemplo, O Beijo, em várias versões). Será impossível, pois não transmite emoção. Recordo o meu amigo Rogério Rodrigues a escrever as suas crónicas, e a IA, espreitando, fica extasiada e as incluirá nos seus milhões de dados. Releio a prosa de Torga, a sua viagem por Portugal (Diários) – é impensável traduzi-la por algoritmos. Nem é preciso invocar Bach e Beethoven, ou Galileu e Einstein, ou Camões e Pessoa…
Deve aceitar-se que a IA está aí: pode ajudar em aspetos práticos, nunca transmitindo emoções. É um engodo no qual se cai facilmente. Fazem-se perguntas por tudo. Todavia, as emoções cabem na criatividade dos artistas. A nós, enquanto apreciadores, cumpre estar atentos, e pensar para não sermos influenciados pelo facilitismo das redes sociais, porque falsos profetas internacionais e nacionais pretendem impingir-nos a arte massificadora. Não à substituição, sim à criatividade emocional. Humana.

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