A opinião de ...

Uma questão de vida ou de morte

Este título foi inspirado num artigo publicado em Social Europe, em que se faz a apologia do poder no feminino, salientando os autores que os países governados por mulheres tiveram muito menos mortes provocadas pela Covid-19 que os liderados por homens. Não me sinto habilitada a confirmar (ou infirmar) tal corolário, nem é esse o objetivo deste artigo. Trouxe o assunto à colação a propósito da resposta europeia à crise pandémica, porque essa resposta foi dada na primeira pessoa por uma mulher, a alemã Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (CE), e porque de outra mulher, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), vieram também sinais muito positivos.
Desde as eleições europeias de maio de 2019 que se verificam mudanças significativas na União Europeia (UE), nas prioridades, nas atitudes e na correlação de forças. Não vou falar dos casos lamentáveis de que a Hungria e a Polónia são o pior exemplo. Prefiro sublinhar o mérito de quem percebeu que os nacionalismos e os populismos, a proliferação de partidos de extrema-direita, o acentuar das desigualdades e dos défices democráticos representam enormes desafios e podem comprometer o projeto de integração europeia.
Ursula Von der Leyen, Christine Lagarde, Angela Merkel, mas também Emmanuel Macron, António Costa e Giuseppe Conte perceberam que só uma Europa mais solidária, mais coesa, mais forte e mais ousada poderia corresponder às necessidades do momento. A proposta de recuperação económica europeia apresentada pela CE, que acrescenta 750 mil milhões de euros (500 mil milhões de euros em subvenções e 250 mil milhões de euros em empréstimos voluntários) ao mais de um bilião de euros do Quadro Financeiro Plurianual, é uma boa base de trabalho para a negociação que se deseja rápida para que as ajudas cheguem onde são necessárias e em tempo útil.
É uma proposta histórica que importa realçar. Independentemente das questões semânticas, reconhece-se, pela primeira vez e ao mais alto nível, que o caminho é a emissão de dívida mutualizada (subvenções). Solução há muito defendida pelo PS e seus representantes nas instituições europeias e sistematicamente rejeitada. É um salto qualitativo de indiscutível significado. Significa que, ao contrário da reação à crise de 2008, desta vez, a CE compreendeu que o momento exigia ação e ambição e compreendeu que era a hora de mostrar a importância geopolítica da UE. Esteve bem a CE, como também esteve bem o Eurogrupo, presidido por Mário Centeno. Espera-se, agora, que o Conselho Europeu e o Parlamento cheguem a acordo. No ano em que se comemoram os 70 anos da Declaração de Schumann e os 75 anos do fim da II Grande Guerra, espero que os atuais 27 Estados-membros estejam à altura dos desafios da História.
Portugal tem sido apontado internacionalmente como um bom exemplo no combate à crise sanitária e ao não deixar ninguém para trás. O governo está a fazer o que deve: já apresentou o seu Programa de Estabilização Económica e Social com um horizonte temporal até 2020, assente em quatro pilares: políticas sociais (com destaque para o investimento no SNS), manutenção do emprego e retoma da atividade económica, apoio às empresas e um eixo institucional que visa a simplificação e a agilização de procedimentos administrativos. E, como é sabido, o Primeiro-ministro convidou o professor e gestor António Costa e Silva, personalidade de reconhecido mérito, para coordenar a preparação do Programa de Recuperação Económica em fase de conclusão.
Albert Einstein afirmou que no meio da dificuldade se encontrava a oportunidade. A crise pandémica mergulhou Portugal, a Europa e o mundo em grandes dificuldades. Mas também abriu a oportunidade de mudarmos o paradigma de desenvolvimento económico, mais amigo do ambiente e promotor de coesão territorial e de mais igualdade social. É uma questão de vida ou de morte para o futuro da Humanidade.

Edição
3789