Pe. Manuel Ribeiro

No fim, ninguém pede mais dinheiro

continuação da edição anterior)
Em compensação, havia uma frase que regressava vezes sem conta. «Pode ficar mais um bocadinho?»
Durante muito tempo pensei que aquele pedido nascia do medo da morte. Hoje acredito que nascia, antes de tudo, do amor pela vida. Porque só quem descobriu o valor da presença pede mais presença. Só quem percebeu que o tempo está a terminar compreende que nenhum bem material consegue substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.
Foi então que comecei a olhar para o mundo com outros olhos.


No fim, ninguém pede mais dinheiro

Durante os anos em que fui capelão de uma Unidade de Cuidados Paliativos, houve um objecto que me ensinou mais sobre a vida do que muitos livros de filosofia, psicologia ou teologia. Não era o crucifixo suspenso na parede, nem os monitores que desenhavam no ecrã a fragilidade de um coração, nem os frascos de medicamentos alinhados sobre a mesa de cabeceira. Era uma cadeira.


Amar para além da utilidade

Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos diante de um hospital, de um funeral, de uma ausência irreversível ou de uma noite demasiado longa para ser atravessada sozinho. E é nesses momentos que percebemos como eram frágeis muitas das coisas a que demos importância excessiva.
Os diplomas envelhecem connosco. Os cargos passam para outros nomes. O prestígio é breve. As propriedades tornam-se paredes silenciosas. Até as fotografias das viagens acabam esquecidas algures numa memória digital.


Amar para além da utilidade

Há pessoas que vivem aterrorizadas pela possibilidade de deixarem de ser importantes para alguém. Não falam disso. Não o confessam. Mas carregam esse medo todos os dias. O medo de já não serem suficientemente interessantes. Suficientemente fortes. Suficientemente divertidas. Suficientemente necessárias para continuarem a ocupar um lugar no coração dos outros.
Talvez uma das maiores fragilidades humanas nasça exactamente aqui: na suspeita silenciosa de que o amor dos outros depende daquilo que conseguimos oferecer.


Às vezes é preciso perdermo-nos

Ouvi a frase dita sem solenidade: “Às vezes é preciso perdermo-nos.” Não vinha acompanhada de teoria nem de conselhos fáceis. Era quase um sussurro de quem já atravessou alguma coisa. Talvez por isso não a consegui ignorar.
Vivemos numa cultura que idolatra a orientação permanente. Tudo deve estar definido, mensurável, optimizado. Ter rumo é virtude. Hesitar é fraqueza. Perder-se é fracasso. Ensinaram-nos que maturidade é controlo e que estabilidade é prova de acerto.


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