A opinião de ...

As Cheias da Vilariça (E as barragens do Sabor)

Recentemente os nordestinos Fernando Brás, da Associação de Beneficiários do Vale da Vilariça e Mário Martins, agricultor e produtor de hortícolas em terrenos ribeirinhos na Foz do Sabor vieram queixar-se publicamente dos enormes prejuízos causados pelas cheias provocadas pela subida descontrolada das águas do Douro.
A minha geração conhece bem este fenómeno e os mais novos podem vê-lo, soberbamente retratado num dramático conto do escritor moncorvense, Campos Monteiro, inserido no seu livro “Ares da Minha Serra”. Desde tempos ancestrais que o Douro, sempre que a pluviosidade o fazia transbordar, invadia o Vale da Vilariça alagando os campos de cultura das margens da Ribeira da Vilariça. A construção das barragens no leito duriense veio mitigar este fenómeno natural, diminuindo-lhe a frequência e a intensidade. Mas, mesmo assim, sempre que chove em demasia, lá vêm as águas barrentas e tumultuosas destruir tudo quanto encontram a norte do Pocinho.
Assim foi em 2016.
Nessa altura o Aproveitamento Hidroelétrico do Baixo Sabor tinha sido inaugurado há pouco tempo. Este complexo, ao contrário da maioria dos aproveitamentos hidroelétricos, tem a curiosidade de ser constituído por duas barragens, o escalão montante (a barragem das Laranjeiras) e o escalão jusante (a barragem do Feiticeiro). Não há barragens “em cascata” porque como a potência extraída da energia hidráulica acumulada é proporcional ao caudal e à diferença de altura obtida com o represamento (e por isso se fazem as barragens) será um desperdício não aproveitar ao máximo a diferença de cotas. Então porquê ter dois paredões próximos para aproveitar um diferencial que um deles teria só por si, quase na totalidade? Porque (e não vislumbro outra razão) a função da segunda vai para além da otimização da produção elétrica. Aliás, a descrição associada a este empreendimento, vai, precisamente nesse sentido: Funciona como um contra-embalse, criando um reservatório menor que permite a operação reversível do sistema tendo como função a regularização dos caudais restituídos ao rio Douro, evitando variações bruscas no nível da água.
Ora, parece que em 2016, bem como agora, em 2026, esta função reguladora não produziu os efeitos esperados. Como eu era, então, Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo pareceu-me haver relevância em esclarecer esta discrepância mais do que evidente. Na preparação da reunião da Assembleia seguinte propus aos deputados municipais da coligação a que pertencia, que o Diretor Regional da EDP fosse chamado, para explicar aos representantes municipais, de viva voz a forma como era suposto aquela função ser executada e, ao mesmo tempo, saber se, no caso concreto, tinha havido algum erro, deficiência ou se afinal a pretensa “regulação” era apenas utopia. O Presidente da Câmara, presente, concordou. Quando preparava a agenda da reunião seguinte contactei o representante da EDP, no Porto, para combinar a sua deslocação a Moncorvo bem como o tema da sua intervenção. Surpreendentemente, fui informado que o tema em questão tinha já sido abordado com o Presidente da Câmara a quem tinham sido dadas todas as informações e explicações, não havendo, no seu entender, nada mais a acrescentar. Contactado o edil, confirmou esta versão reforçando que o legítimo interlocutor da EDP era a Câmara e não a Assembleia.
Fiquei à espera dos esclarecimentos da Câmara. Em vão! Se bem que a mim, nada me é devido, é-o, seguramente, aos eleitores de Moncorvo, sobretudo aos afetados pelas intempéries.

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