A opinião de ...

Prevenir continua a ser melhor do que tratar

A frase é antiga, repetida vezes sem conta, e talvez por isso facilmente desvalorizada. “Prevenir é melhor do que remediar” soa quase a lugar-comum, usada em campanhas, discursos e consultas médicas. No entanto, apesar da sua simplicidade, continua a ser uma das verdades mais sólidas da medicina moderna. Prevenir não significa evitar todas as doenças - tal seria irrealista - mas reduzir riscos, ganhar tempo, evitar sofrimento desnecessário e melhorar a qualidade de vida ao longo dos anos.

Grande parte das doenças que mais pesam na vida das pessoas e nos sistemas de saúde não surge de forma súbita. Desenvolvem-se lentamente, ao longo de anos, muitas vezes de um modo silencioso. Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, alguns cancros ou problemas respiratórios crónicos começam antes de darem sinais claros. Quando os sintomas aparecem, a doença está já instalada. A prevenção atua precisamente nesse intervalo invisível, quando ainda é possível intervir com medidas simples e eficazes.

Prevenir passa por escolhas individuais, mas também por condições coletivas. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, moderação no consumo de álcool e não fumar são pilares bem conhecidos. Menos evidente é o impacto de fatores como o stress crónico, a solidão, a saúde mental ou o acesso regular a cuidados de saúde. A prevenção não acontece apenas no consultório, acontece no quotidiano, na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

Um dos exemplos mais claros do valor da prevenção está nos cuidados de saúde primários. De facto, nas “consultas de rotina” é possível medir a tensão arterial, avaliar o peso, conversar sobre hábitos de vida e, em certos casos, detetar alterações precoces. Muitas vezes, estas consultas não resultam em exames sofisticados nem em novos tratamentos, mas evitam problemas maiores no futuro.

Contudo, talvez o maior obstáculo à prevenção seja o seu sucesso silencioso. Tratar uma doença é visível, mensurável e, por vezes, imediato: há exames, diagnósticos, tratamentos e resultados concretos. A prevenção, pelo contrário, é discreta e passa facilmente despercebida: é o enfarte que não aconteceu, a diabetes que foi adiada, a queda que não ocorreu, a autonomia que se mantém. Não gera reconhecimento imediato, mas é precisamente nessa invisibilidade que reside o seu valor. Investir na prevenção é investir em anos de vida com mais autonomia, menos dor e maior bem-estar, tanto para as pessoas individualmente como para as comunidades e para os próprios sistemas de saúde.

Assim, num tempo em que a Medicina dispõe de tecnologias cada vez mais avançadas, é tentador acreditar que tudo pode ser tratado mais tarde. No entanto, realidade é outra. Continuamos a viver melhor quando atuamos antes. Prevenir continua, e continuará sempre, a ser melhor do que tratar.

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