“Quando nos voltarmos a encontrar”
Há tantas coleções como interesses pessoais. As que mais aprecio são as que ajudam a preservar a memória coletiva e, que edificam as pessoas. Isto para falar de um livro que colige panegíricos, que usam a gratidão, como que usa uma ciência que pode mudar vidas e influenciar pessoas. Falo-vos de um livro e de um amigo, “Quando nos voltamos a encontrar”, de Júlio “Fagus”, 2025.
O livro foi o pretexto para rever um velho amigo, tomar um apressado, mas sentido, café com o professor Júlio Rocha, o autor Júlio “Fagus”. Encontramo-nos, entre o Fórum e o Tribunal, em Bragança, quase se podia dizer que estivemos “entre a audiência prévia e, a audição das partes”.
Rocha, porquê Julio “Fagus”? “Sempre nos tratamos como coetâneos, sem que isso desse azo a qualquer abuso da minha parte” [13]. Porquê este livro, e o título? Disparei, sem querer ferir ninguém, mas entendendo o constrangimento, infligido por esta entrevista aos compromissos do autor.
Apesar da pressa sentamo-nos um pouco.
Ao meu nome próprio, Júlio, acrescentei o étimo latino “Fagus”, faia, a árvore caducifólia, caraterística de montanha, do sul da Europa e do nosso país, acrescentou o autor.
O livro surge das minhas presenças em cerimónias fúnebres, de “pessoas que deixaram alguma marca profunda que nos ficaram. É o meu contributo para a preservação de documentos […] que brotaram da alma em momentos difíceis onde cada palavra foi muito ponderada para engrandecer os mortos sem amesquinhar os vivos”. Trata-se de uma coletânea de discursos emocionados, que tantas vezes ouvimos, “nestes momentos em que a sensibilidade dos ouvintes está ao máximo” [8]. Quantas vezes no final de uma cerimónia exequial, os familiares do defunto pedem para dizer umas palavras, proferir um elogio e, rematam habitualmente: “Quando nos voltarmos a encontrar”.
Parece que Rousseau e Francisco de Assis se cruzam nesta obra. Ela perscruta a bondade inata em cada ser humano, entre variados panegíricos feitos perante o féretro de um amigo, familiar, hierarca, patrão, ou empregado […], pois “os homens bons vivem para sempre na memória dos amigos” [56]. “As fórmulas de despedida manifestam a esperança de um dia haver um reencontro com as pessoas que partem”. «Quando nos voltarmos a encontrar», traduz essa certeza e vontade de continuar na outra vida os laços de amizade e comunhão que existiam nesta e merecem ser continuados» [9].
O livro impressiona pela força de textos sentidos, mais ou menos densos e, de cada elogio fúnebre brota uma visão crente, “na hora da despedida de alguma pessoa que partiu antes de nós para a vida eterna” [7].
Um livro a ler, para recordar algo que já se ouviu ou proferiu num momento fúnebre, ou um incentivo ao elogio, pensado e refletido, como quem crê que a gratidão é a expressão da nobreza da alma, ou como dizia Cícero: “a gratidão não é somente a maior das virtudes, é a origem de todas as outras”.
Parabéns ao autor.
