O leva e traz... o deve e o haver
Quando é um antigo governante a admiti-lo, é porque a coisa é séria. Pior, só se fosse mesmo um governante em exercício. Mas para isso nunca há coragem. É como aqueles cãezinhos que ladram muito mas só de longe, depois de o perigo passar.
Ora bem, do que se fala nesta crónica? Fala-se das declarações que o antigo Ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, prestou ao Mensageiro à margem de uma atividade em Vila Flor, relacionada com o ambiente (ver mais informação nas páginas centrais).
Dizia o antigo ministro que é preciso repensar as contrapartidas que o Estado deixa nos territórios pela utilização (muitas vezes quase um saque) dos recursos endógenos e naturais, que são explorados para benefício de todos (ou, muitas vezes, dos outros) mas sem que as populações que são afetadas pelo impacto dessa exploração seja compensadas.
Isto a propósito, por exemplo, da exploração de recursos como os rios que são utilizados para a produção de energia elétrica. A construção de barragens tem óbvios impactos nos territórios e nas populações que os habitam. Por isso mesmo é que, por norma, são definidas listas de compensações criadas precisasamente para retribuir alguma coisa pelos danos causados e, muitas vezes, até perdas de rendimentos.
Mas o que acontece? Os recursos são explorados e as compensações perdem-se no tempo e na memória.
Veja-se o caso do sistema de mobilidade do Tua, prometido como compensação pela construção da barragem do Tua, que privou as populações daquela zona do distrito de Bragança de um sistema de transporte que as ligava ao mundo: o comboio.
O que é certo é que a barragem já está em funcionamento há anos e o regresso da mobilidade a estas populações continua a apodrecer, como apodressem as carruagens e a locomotiva adquirida para o efeito.
Isto para não falar do que acontece, por exemplo, com a instalação de minas, em que as contrapartidas nunca ficam nos territórios, apenas os efeitos nefastos.
É preciso repensar a forma como o Poder Central olha para os territórios.
É preciso deixar de lado o olhar surripiador e passar a olhar com o olhar da justiça e da equidade.
Caso contrário, não há políticas que combatam o despovoamento e invertam a tendência de desertificação do território.
Em poucos anos, Portugal estará contrado entre Setúbal e Viana do Castelo e o resto será um grande resort de luxo para alguns irem passar férias. Se o território fosse devidamente compensado, a distribuição de população pelas diferentes regiões seria mais equitativa, sem a pressão que existe hoje nos grandes centros.
