47 anos de Parque: que Montesinho queremos no futuro?
Celebrar os 47 anos do Parque Natural de Montesinho é celebrar muito mais do que uma classificação administrativa. É celebrar um território raro, uma paisagem extraordinária e uma identidade construída ao longo de gerações. É agradecer a todos os que tiveram a visão de o proteger e a todos os que, desde então, assumiram a responsabilidade de o preservar. Mas é, acima de tudo, recordar o papel fundamental de quem sempre cuidou do território do Parque antes dele próprio existir: as populações.
Um aniversário é um bom momento para fazer um balanço sobre o trabalho feito e projectar o que se pretende para o futuro respondendo a uma questão tão complexa quanto simples:
Que Parque queremos daqui a 47 anos?
Um Parque mais protegido, certamente, mas também mais vivo, mais habitado, mais próximo e sobretudo mais capaz de conciliar aquilo que nunca deveria ter sido colocado em lados opostos: a natureza e as pessoas que nele habitam e trabalham.
Para muitos, Montesinho não começou em 1979. Começou muito antes nas memórias de infância, nos caminhos das aldeias, nos lameiros e nos soutos. Começou nas pessoas que nos ensinaram a conhecer o território não através de placas ou regulamentos, mas através da vida.
E há uma verdade que importa repetir, sobretudo quando pensamos o futuro: as pessoas já cá estavam antes de existir o Parque.
Quando se criou o Parque Natural de Montesinho, não se encontrou um território vazio que precisava de ser salvo. Encontrou-se um território cuidado e trabalhado por gerações. A paisagem que hoje admiramos é também resultado dessa relação secular entre as comunidades e a natureza.
As populações não são uma ameaça à identidade do Parque, são uma das razões pelas quais essa identidade existe, o que exige que façamos uma reflexão séria sobre a forma como queremos gerir este património no futuro.
Durante anos, o Parque soube fazer algo extraordinário: dar vida à própria ideia de Parque. As regras existiam, a proteção era uma preocupação, mas havia espaço para a vivência. Eu, como muitos de nós, guardo memórias felizes desse tempo: a Casa da Lama Grande era um lugar ímpar de convívio; as escolas tinham no Parque um espaço privilegiado para ensinar e descobrir a natureza; as famílias “de fora do Parque” passeavam e viviam aquele território. Havia uma relação de pertença que não diminuía o respeito pela natureza: ensinava a respeitá-la através da proximidade. As regras protegiam, mas não afastavam. Talvez seja essa memória que nos deva inspirar quando pensamos o Parque que queremos para o futuro.
As regras são necessárias. A proteção exige limites e fiscalização. Ninguém pode defender um Parque Natural sem defender a natureza que lhe dá razão de existir, mas existe uma diferença capital entre proteger e sufocar.
Quando a regra se torna um fim em si mesma, quando o habitante sente que cada iniciativa é uma dificuldade e cada intervenção uma suspeita, quando é mais fácil dizer “não” do que procurar uma solução, a ligação das pessoas ao território enfraquece e o próprio Parque perde a sua essência.
Um Parque Natural não pode ser um lugar onde se pretenda conservar a paisagem à custa de afastar quem nela vive, até porque são os parceiros privilegiados de conservação! Um território sem pessoas perde conhecimento, memória, atividade, vigilância e identidade. Perde futuro.
Queremos um Parque protegido onde seja possível viver: onde os jovens possam imaginar um futuro que projete o Parque, onde quem trabalha a terra possa continuar a fazê-lo, onde as aldeias não sejam apenas fotografias da ruralidade de antigamente, onde quem chega possa descobrir a natureza, mas também compreender e respeitar a vida que lhe dá sentido.
Não temos de escolher entre preservar a natureza e manter as comunidades, temos que perceber que ambas sempre coexistiram e não existiriam uma sem a outra.
Aos 47 anos, este Parque tem uma história extraordinária. Cabe-nos agora decidir que história queremos contar daqui a outros 47. Que este aniversário seja, por isso, um novo compromisso: o compromisso de preservar sem congelar. De proteger sem sufocar. De regular sem afastar. De valorizar sem descaracterizar. De nunca esquecer que aquilo que hoje queremos proteger foi, durante gerações, protegido por quem aqui viveu.
Que os próximos 47 anos não sejam de construção de barreiras, mas de reconstrução de pontes entre o Parque e as suas gentes.
