Preocupações
Frei Bento Domingues utilizou, na sua crónica dominical de 17 de Maio (jornal Público), o título “As preocupações de Leão XIV”. Coloca o Papa algumas questões atuais e perturbadoras: «De onde vimos? Onde estamos como cristãos?» E recorda uma figura histórica-religiosa-espiritual, exemplo para crentes e não crentes. Todos aceitamos Francisco de Assis como exemplo de humanidade e de humildade. Defende Leão XIV que urge dar continuidade ao sentido concreto que Leão XIII defendeu na encíclica Rerum Novarum no final do século XIX, momento de graves fragilidades para os trabalhadores das fábricas, em plena revolução industrial.
Atualmente, as fragilidades assumem novos contornos num contexto moderno de inovação tecnológica, que deveria propiciar bem-estar. Mas não: aumenta a pobreza por todo o lado, guerra que mata e destrói, fome que grassa nos países em desenvolvimento e mesmo nos países ricos. Miséria humana de contrastes: os homens ricos e poderosos são-no cada vez mais, e os pobres padecem um clima de sobrevivência e infelicidade.
É verdade que Leão XIV «não vacila em denunciar dirigentes políticos enriquecidos à custa da pobreza de muitos povos privados da liberdade, dos direitos humanos mais fundamentais». Todavia, o contraponto negativo existe: está nos dirigentes mundiais que fazem orelhas moucas, perpetrando morte, fome e sofrimento. É a guerra pela guerra. O dinheiro, o poder. A vileza, a superioridade. O despotismo político. A submissão dos povos. O exercício da tirania. A violência. A crueldade. O luxo. Numa palavra: a barbárie, tão ou mais grave quanto a que séculos e décadas atrás ocorreu sob o ferro das armas.
Questiono, entre nós: que fenómenos ocorrem nesta sociedade onde os direitos humanos são selvaticamente vilipendiados, esquecidos? Ajudai-me, caros leitores, com a vossa capacidade de observação, a elencar alguns males que nos afligem, aqui, neste rincão no sudoeste europeu, à semelhança do que se passa por todo o Mundo.
Não é difícil face ao que os direitos humanos proclamam. Assim:
Primeiro: como são tratadas as mulheres quanto ao nível salarial e proteção concreta contra desvarios vários – algo que se arrasta há décadas?
Segundo: o que pretende acolher a legislação enviada, sem concessões, para o Parlamento sobre a relação equilibrada entre trabalho e capital – o pacote laboral não propicia a precariedade dos trabalhadores, e, a longo prazo, prejuízos para as empresas?
Terceiro: que aspetos assume a racialização e a xenofobia num País onde alguns políticos provocam lutas contra os imigrantes – esquecendo que muita da riqueza nacional foi construída na base da emigração?
Quarto: – como se defende o direito à saúde para todos, conforme preconiza a nossa Constituição – se as listas de espera são elevadas, se o interior está esganado pelas políticas distorcidas do governo que, entre outras medidas drásticas, revê em baixa as metas para atribuir médico de família a mais utentes do SNS?
Quinto: – que medidas tem o governo para propiciar habitação – se o acesso a uma casa se tornou incomportável para a maioria das famílias e jovens?
Encontrareis outros males, caros leitores. Desejamos um Estado Social ou Estado Liberal? Voltaremos a encontrar-nos para distinguir e apreciar ambos os modelos.
