“A Ordem Natural das Coisas”
Utilizo o título desta obra de António Lobo Antunes (D. Quixote, 5.ª edição, 2025) para fazer algumas reflexões. Urge desviar o olhar e o pensamento do que nos vai martelando a cabeça insistentemente: o populismo que se serve de notícias falsas (fakenwes) e de notícias manipuladoras (deepfakes). Coloco a questão: qual a ordem natural das coisas? É aquela que a capa da obra, acima citada, exibe: num passeio da cidade, um engraxador e ao seu lado, sentado num caixote, um menino (fotografia de Eduardo Gageiro, 1965)? Ou aquela do Público de 23.06.2026 (Últimas Notícias, br. Brasil, Folha de S. Paulo), apresentando a figura de um magnate, dono da Igreja Universal, assinalando que a Polícia bloqueou € 111,7 milhões do banco de Edir Macedo? Ou aqueloutra que se nos depara em algumas ruas das nossas cidades (idem, pelo mundo), onde a pobreza se vê e sente? Ou será a obra de homens poderosos que mandam no mundo, colocando o lucro como objetivo capital? Ou ainda aquela que o grande ator norte-americano, Roberto de Niro, critica, sem medo: a situação mundial provocada por Trump e seus comparsas?
Estas dúvidas assaltam-nos ou passam ao nosso lado? Ao longo dos séculos, houve sempre esta ideia de uns tantos espezinharem o Outro. Foram a escravidão, o holocausto, o colonialismo, o uso de armas nucleares, a exploração do trabalho infantil, a deportação de migrantes europeus para países de origem aprovada no Parlamento Europeu.
Porém, a História apresenta-nos grandes homens e mulheres destinados a construir o bem comum: maltratado e, alguns mortos. Enumero: Albert Schweitzer (médico suíço que andou pelo Gabão a ajudar os enfermos), Ghandi (o lutador pelo direito dos povos à liberdade, assassinado); Luther King (o defensor dos direitos humanos para os negros, assassinado); Thomas Morus (fiel à doutrina da igreja católica que a ela nunca renunciou, mandado executar por Henrique XVIII, de quem foi conselheiro); Wangari Maathai, queniana, Prémio Nobel da Paz, 2004 (estabeleceu a ligação entre ambiente, direitos humanos e democracia).
Foi Jesus quem legou à Humanidade a divinal palavra, defendendo o encontro entre todos os homens, proclamada em: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei». Que melhor expressão traduz o humanismo e a dignidade entre todos os homens?
Retenhamos, agora, a oportuna palavra de Leão XIV na Encíclica MAGNIFICA HUMANITAS, de que respigo três ideias:
Primeira: Leão XIV coloca a dignidade da pessoa humana acima de quaisquer avanços tecnológicos, ainda que úteis, como a Inteligência Artificial; refere-se aos “sobressaltos da era algorítmica”.
Segunda: A defesa do bem comum que a doutrina social da Igreja encerra, que muitos esqueceram (um partido que se reclamava desta doutrina, desfaz-se agora em palavras e ações de ódio, influenciando partidos democráticos).
Terceira: Defende que urge “desarmar” a IA, ou seja, «subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva». E prejudica os mais frágeis.
É imperioso ler a Encíclica MAGNIFICA HUMANITAS, colocando a questão: para onde caminhamos, sem afastar o desenvolvimento tecnológico, pondo-o ao serviço do homem
