O Aleph de Pedrouços
Tivesse Borges (o escritor ou o seu alter-ego) rumado a Pedrouços, na zona ribeirinha de vetusta Lisboa, em vez de se dirigir à rua Garay do bairro Constituición, em Buenos Aires; tivesse procurado a antiga Lota do Peixe da APL, em lugar da residência da falecida Beatriz Viterbo; indagasse por soluções inovadoras para doenças oncológicas e neurodegenerativas ao invés de esquadrinhar a correspondência secreta da mulher amada, com o seu primo Carlos Daneri; espreitasse para o interior do enorme barracão, à beira-Tejo em detrimento do porão por baixo das escadas da sala de jantar… e teria descoberto um outro espaço, não tão minúsculo como o existente na moradia argentina, nem sequer, tão extenso e universal, mas igualmente fascinante, seguramente entusiasmante e, o que não é de somenos, mais útil e promissor.
Inexoravelmente mais real!
E, por isso mesmo, mais estimulador, a carecer de desenvolvimento, investigação, entrega, partilha, investimento e genialidade.
O prodigioso autor sul-americano, com quem partilho a ancestralidade (os seus avós são de Torre de Moncorvo, tal como os meus) vislumbrou no mágico e diminuto lugar, todos os pontos do universo, todas as imagens da realidade todo o conhecimento, toda a história e toda geografia da humanidade. Quiçá estiveram acessíveis, nessa fantástica visão, os tratados, as teses e as respostas às interrogações científicas que já pairam no antigo mercado do peixe lisboeta, bem como as suas antíteses… tal como descrito na sua, igualmente imaginosa, Biblioteca de Babel e, por isso mesmo, absolutamente inúteis. Porém, se de pouco serve o infindável repositório… o conceito inerente à sua criação, a mistura fantasiosa das várias fontes de conhecimento e a sua concentração num lugar único, visitável, é altamente recomendável se transposto do universo quimérico da literatura para a realidade do mundo da investigação, da prática médica, da inovação tecnológica e da valorização da propriedade industrial e intelectual.
Um lugar desses, sonhado e planeado ao longo de vários anos, está a nascer num dos edifícios erigidos, há décadas, para apoio das atividades piscatórias, onde, já hoje, se pesquisam e desenvolvem novas e inovadoras metodologias de tratamento de doenças oncológicas e neurológicas. No armazém, conhecido pelos vários utentes por “Warehouse”, fruto de um investimento aprovado e financiado pelo PRR, vão ser instalados dois novos Institutos de Investigação ligados e patrocinados pela Universidade Nova e pela Universidade Católica. Haverá, também, espaço para o acolhimento de várias empresas tecnologicamente avançadas e com capacidade evidente de transformar em produtos clínicos as evidências ali trazidas à luz do dia.
A partir de janeiro de 2027, existirão, no mesmo lugar, com excecionais condições de cooperação e obtenção de benefícios recíprocos, vários grupos de investigação, várias equipas médicas, vários técnicos laboratoriais, várias plataformas tecnológicas, vários recursos informáticos e de Inteligência Artificial, bem como várias empresas de vanguarda nos domínios das terapias de tratamento de doentes com cancro e com doenças neurodegenerativas.
Um Aleph verdadeiro, real e útil!
