A opinião de ...

Aonde pára a imprensa, 3.0

Não se trata de um filme de comédia, mas parece. Na semana passada, no Porto, durante a intervenção policial na manifestação de jovens pelo direito à habitação, que aconteceu na noite de 15 de outubro.
Numa reportagem da RTP, que recuperou vídeos gravados pelos próprios manifestantes, há um pormenor que salta à vista. Perante a tensão da intervenção policial, ouvem-se vozes a perguntar pela imprensa. “Onde está a imprensa?”, “quem tem contactos dos media?”
A sociedade atual, e, em particular, os jovens, vivem mergulhados nas redes sociais. Qualquer cidadão transporta no bolso uma câmara e dispõe de meios para transmitir acontecimentos ao mundo em segundos. Todos podem publicar. Todos podem comentar. Todos podem, aparentemente, informar.
Mas, quando a situação se complica, quando ‘toca a fogo’ e ‘a necessidade aperta’, o instinto leva o Ser Humano a procurar imediatamente quem reconhece como referência de segurança, proteção e confiança.
Naquela madrugada, os jovens não perguntaram por influenciadores, pelos algoritmos ou pelas plataformas digitais. Perguntaram pela Imprensa!
E esta, hein?, como diria o saudoso jornalista Fernando Peça.
Porque uma coisa é publicar conteúdos, outra coisa, bem diferente, é informar. É o compromisso com a verdade, a luta diária pela credibilidade.
Uma coisa é mostrar imagens, outra é contextualizá-las, confrontar versões, apurar responsabilidades e garantir que os factos não ficam à mercê da interpretação mais conveniente, ou do maior patrocínio ou, como se diz em ‘influencês’, da maior parceria, ao jeito de “quem mais paga mais amigo é do santo”.
A imprensa não substitui a Justiça, não exerce a autoridade do Estado nem deve tomar partido antes de conhecer os factos. Mas a sua presença constitui uma garantia adicional de escrutínio público. Protege o direito dos cidadãos a serem informados (consagrado na Constituição Portuguesa) e obriga quem exerce o poder a saber que os seus atos podem ser observados, questionados e expostos.
Não é uma proteção absoluta. Nem os jornalistas são infalíveis. Mas uma democracia fica mais vulnerável quando deixa de ter quem faça perguntas incómodas.
E aqui reside o paradoxo dos nossos dias. Nunca a informação circulou tão depressa e, provavelmente, nunca o jornalismo enfrentou tamanhas dificuldades para sobreviver. Exige-se informação gratuita, imediata e permanente, enquanto se desvaloriza o trabalho profissional que lhe dá credibilidade. Confunde-se audiência com relevância, popularidade com verdade e opinião com notícia.
Também na imprensa regional sentimos diariamente essa contradição. Há quem questione a utilidade de um jornal local, até ao momento em que precisa que alguém denuncie uma injustiça, fiscalize uma decisão, investigue um problema ou dê voz a quem não consegue fazer-se ouvir. Ou, simplesmente, precise de dar nota da atividade da associação da terra, do clube do bairro ou da freguesia, com a chancela da verdade e da credibilidade, que permite destacar-se no meio do ruído das redes sociais.
Nessa altura, ninguém pergunta quantos seguidores tem o jornal. Pergunta-se onde estão os jornalistas.
Porque o verdadeiro perigo para uma sociedade não é haver jornalistas a fazer perguntas. É chegar o dia em que alguém grite «Onde está a imprensa?» e já não esteja ninguém para responder.
Um pouco ao jeito da velha fábula do Pedro e do Lobo. Tantas vezes gritou o Pedro pela ajuda das pessoas da aldeia contra o Lobo imaginário que lhe atacava o rebanho que, quando o lobo veio, de facto, já ninguém acorreu para o salvar.
Ajude-nos a ajudar. Ajude a imprensa local. Nunca sabe quando pode vir a precisar dela...

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