A opinião de ...

António Costa: mobilizar Portugal e os portugueses

Confesso que desde há bastante tempo tenho sido desconfortado com esta sensação tão desanimadora de não sentir qualquer estímulo para a intervenção política. A degradação da qualidade da democracia, o abandono dos melhores e mais competentes da militância partidária, a ascensão às lideranças dos partidos do arco da governação de pessoas que são o produto dos “aparelhos partidários”, o domínio dos partidos por lógicas de aparelho que afastam os cidadãos da intervenção política, tudo isso me fez afastar do entusiasmo com que durante toda a minha vida intervim na política partidária.
As eleições europeias foram um teste sério ao sentimento que eu tinha e, também e sobretudo, ao que os portugueses pensam dos partidos e das suas lideranças. Foi a partir desses resultados que o António Costa fez uma leitura simples e clara e, com o desassombro e a frontalidade que lhe são conhecidas~, disse estar disponível para mobilizar os portugueses através de uma nova liderança do Partido Socialista.
E, muito sucintamente, são três as razões pelas quais entendo ser o António Costa o candidato que melhor satisfaz os interesses de Portugal e dos portugueses:
Em primeiro lugar o Partido Socialista necessita de uma remodelação profunda das suas estruturas dirigentes e, particularmente, da sua liderança, de modo a transmitir aos portugueses a confiança indispensável para que a esperança seja o vínculo e a adesão à alternativa política ao governo do PSD/CDS, que tanto mal tem feito aos portugueses, sobretudo aos mais desfavorecidos, e a quem nas eleições europeias foi dado um severo sinal de que a sua política está esgotada e os portugueses não a querem.
Uma segunda razão prende-se com o País e com a imperativa necessidade do governo ser liderado por alguém que conhece bem a realidade, que não é produto de aparelhos partidários nem académicos de biblioteca e que tem revelado uma indiscutível capacidade para liderar equipas, introduzindo soluções governativas novas, que assentem num modelo económico que privilegie a economia, a criação de emprego, uma autêntica e bem conduzida reforma do Estado de que possa resultar maior coesão social e territorial. E António Costa tem essa capacidade, é portador desse discurso de esperança e os portugueses acreditam nele e sentem-se, por isso, mobilizados para lhe conceder um resultado eleitoral que não o limite na ação governativa e negocial.
Um terceiro aspeto tem a ver com a Europa. A Europa, tal como existe, é hoje uma miragem do projeto de Jean Monnet, de Robert Schuman e de Jacques Delors. Da Europa das nações e dos povos passou-se para uma Europa de cariz intergovernamental e, agora, de diretório. A reforma das instituições europeias, designadamente do Banco Central e da Comissão são essenciais para a evolução positiva do projeto político europeu. A crise a que chegaram as economias do sul tinha sido evitada com uma intervenção tempestiva do Banco Central Europeu, a qual só veio a acontecer mais tarde com a decisão de compra de dívida pública no mercado secundário, sem limitações, e a assinatura do Tratado Orçamental (votado pelo P.S.) foi o maior disparate para a construção do projeto europeu e para a integração plena das economias mais frágeis. António Costa tem uma ideia perfeita e de contornos bem definidos sobre o que deve ser a Europa, consegue congregar à sua volta todos aqueles que não se reveem nesta deriva neoliberal, que condenou países como Portugal a um empobrecimento económico e social, obrigando a descartar a geração mais bem preparada de sempre que, sem outra alternativa, foi empurrada para uma emigração forçada sem qualquer retorno para o país. Penso, pois, que com António Costa Portugal terá na Europa uma voz respeitada e, porventura, com capacidade para mobilizar um rumo alternativo ao atual.
Finalmente, uma questão de postura e comportamento. Enquanto o António Costa tem feito uma apresentação da sua candidatura voltada para o país e para os portugueses, sem se enredar em questões pessoais e de mera mesquinhez politiqueira, o António Seguro tem preferido regurgitar o seu ressabiamento, acusando pessoal e moralmente um camarada que, ao longo de mais de trinta anos de carreira política, se revelou de conduta irrepreensível. Fica-lhe mal e surpreendeu-me a mim e a todos os portugueses pela boçalidade ofensiva das boas regras de camaradagem, nada própria de quem ambiciona desempenhar uma das mais importantes funções no Estado.

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