A opinião de ...

O Faroleiro e o Guardião da Montanha

Houve um tempo em que um reino se estendia entre o mar e a montanha.

Junto ao oceano erguia-se um grande farol. Todas as noites, o Faroleiro acendia a sua luz para guiar os navios até ao porto. Graças a essa luz, os mercadores chegavam em segurança, as embarcações enchiam o cais e o reino prosperava.

O Rei admirava o Faroleiro.

— A tua luz traz riqueza ao reino. Sem ela, os navios não encontrariam o nosso porto.

Longe dali, no alto da serra, vivia o Guardião da Montanha.

Cuidava dos caminhos, reparava pontes, vigiava as florestas e conhecia cada nascente, cada pedaço de terra, cada olival e cada aldeia. Sabia quais os campos que começavam a ficar abandonados e quais os caminhos que em breve deixariam de ser percorridos.

Um dia, o Rei reuniu os seus conselheiros.

Sobre a grande mesa abriram mapas, mostraram contas e apresentaram números.

— O porto cresce. É para lá que devemos levar os recursos.

E assim aconteceu.

Na montanha, os recursos tornaram-se cada vez mais escassos.

O Guardião pediu melhores caminhos, ferramentas e condições. Alertou para as aldeias que se esvaziavam, para os caminhos que se fechavam e para os campos abandonados.

Poucos o escutaram.

O Rei, à semelhança de tantos outros que o antecederam, preferiu confiar nos números.

Ainda assim, o Guardião continuou.

Sabia que abandonar a montanha seria abandonar também quem nela permanecia.

Os anos passaram.

No início, quase ninguém deu pela sua ausência.

Primeiro desapareceram dos banquetes da corte os sorvetes de neve.

Depois desapareceram das mesas da corte as peças de caça. Os corços, os coelhos e os javalis continuavam a percorrer a montanha, mas já não havia caçadores que conhecessem os seus trilhos e os trouxessem até ao palácio.

Mais tarde escasseou a boa madeira. As florestas, sem quem delas cuidasse, cresceram desordenadas, adoeceram e arderam. Os estaleiros construíram cada vez menos embarcações.

O Rei considerou tudo isso pequenos incómodos.

Até que, num inverno, o farol começou a perder o brilho.

Começou a faltar o azeite que alimentava a chama, porque os olivais da montanha tinham sido deixados ao abandono.

Primeiro, a luz tremia.

Depois, apagava-se nas noites de vento.

Até que chegou uma noite em que o farol não voltou a acender.

Sem luz, os navios deixaram de entrar no porto.

Os mercadores partiram.

Os estaleiros fecharam.

E o cais ficou em silêncio.

Muitos anos depois, já velho, o Rei caminhou até ao farol.

Encontrou o Faroleiro sentado diante da lanterna apagada.

Ao longe, a montanha permanecia coberta de mato e silêncio.

— Quando começou o reino a perder a sua riqueza? — perguntou.

O Faroleiro baixou os olhos.

Foi o Guardião quem respondeu:

— Muito antes do farol se apagar.

O Rei voltou-se para ele.

— Quando?

O Guardião ergueu os olhos para a montanha.

Permaneceu em silêncio durante alguns instantes.

Depois respondeu, serenamente:

— A montanha não morreu quando o último habitante partiu.

Fez uma breve pausa.

— Morreu no dia em que deixaram de semear esperança.

O silêncio caiu sobre o porto.

Pela primeira vez, o Rei compreendeu que a luz do farol nunca nascera junto ao mar.

O farol... esse... apenas demorara mais tempo a apagar-se.

Moral

Quem cuida apenas do que brilha acaba por esquecer aquilo que alimenta a verdadeira Luz.

Edição
4108

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