A Escola e a Educação
Em matéria de educação, há questões que preocupam os portugueses, agora e sempre, que enumero, sem ser exaustivo: a escassez crítica de professores e baixas médicas, as infraestruturas sistémicas em falta, a fusão de ciclos, o desempenho escolar traduzido na baixa proficiência em muitas disciplinas (Matemática e Português, por exemplo), a avaliação das aprendizagens, os salários, o stress, os comportamentos dentro e fora da sala de aula. Sabemos: é cíclica a vontade de fazer diferente por quem se apresta para governar em nome da “novidade pedagógica”, como se não houvesse um problema de fundo, como se a educação se reduzisse a números, a indicadores, a taxas. Isto, sem prejuízo do seu valor que deve ser equacionado pelos atores diversos, obviamente. Andamos sempre a navegar. Infelizmente, não há planeamento, não há uma estratégia nacional. Portanto, o desenvolvimento humano fica prejudicado. (Faço recordar que o crescimento económico se preocupa com o aumento da produção de bens e serviços de um país, e que o desenvolvimento humano avalia a melhoria real da qualidade de vida e do bem-estar da população).
Um problema me aflige particularmente: o diminuto valor atribuído à educação/instrução na vertente “criatividade” das crianças e jovens que serão os futuros homens e mulheres. Ou seja, a perda de valores humanos, que conduzem à fragilidade democrática. E penso que as crianças e jovens são tratados para esquecer a ilusão, o entusiasmo e a invenção imanentes às suas idades. As redes sociais estão a minar a imaginação e a criatividade próprias da sua idade.
Um dos nossos clássicos que urge revisitar é Miguel Torga. Sempre. Escreveu ele um poema no seu Diário IX, , no dia 18 de Abril de 1962 (repito: 1962, 5.º edição D. Quixote, 2011, páginas 65 e ss.) em S. Martinho de Anta, que transcrevo a seguir. O poema servirá para reflexão, e tem a marca de um grande escritor, nunca avaro em colocar-nos perante dúvidas, saudáveis dúvidas.
«Instrução primária
Não saibas, imagina…
Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.
Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…
Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia.»
Cometários meus, para quê, se os homens que dominam as redes sociais e os mídia e afastam o essencial, marginalizam a capacidade da reflexão, igualizam em vez de distinguir, ostracizam escritores (vide caso Saramago), obedecem à sacrossanta tecnologia? Creio, contudo, que todos estaremos de acordo: é urgente o pensamento crítico e reflexivo. Humano. Neste trabalho de humanização é fundamental a relação aluno-professor, que nenhuma máquina substitui. A não esquecer. Nunca.
