Alfândega da Fé

Pe. Guilherme defende redes que criem relações em vez de procurarem seguidores

Publicado por António G. Rodrigues em 01-10-2026 10:13

“Não se trata de números, não se trata de algoritmos, trata-se de relação.” Foi desta forma que o padre Guilherme definiu a missão digital, numa entrevista ao Mensageiro de Bragança concedida durante o I Encontro Nacional de Missionários Digitais, que decorreu no sábado, em Alfândega da Fé.

O sacerdote e DJ, que encerrou o encontro com um concerto que juntou mais de três mil pessoas no recinto da feira, defendeu que evangelizar no digital é muito mais do que divulgar notícias da Igreja ou publicar conteúdos religiosos.

“É criar laços, criar encontro e fazer com que as redes também sejam um lugar de paz. Não interessa se o missionário tem 200 seguidores ou um milhão”, afirmou.

O padre Guilherme alertou para a influência exercida pelos algoritmos, que privilegiam rostos, exposição pessoal, conflito e conteúdos capazes de gerar reações. Esta lógica pode levar quem comunica a fé a valorizar a projeção individual em detrimento da missão.

“Sem nos darmos conta, facilmente nos deixamos levar pelo algoritmo. O algoritmo pede caras, pede uma presença forte e consome-nos”, observou.

Por esse motivo, considera indispensável que a Igreja proporcione formação e acompanhamento aos católicos presentes nas plataformas digitais, em vez de se limitar a criticar comportamentos ou a apontar os erros dos chamados influencers católicos.

“É fácil dizer que aquele influencer é vaidoso ou que não está a fazer as coisas da forma correta. Então, a quem quer estar nas redes, o que é que a Igreja tem para dizer? Vamos formá-los”, defendeu.

O encontro de Alfândega da Fé poderá, na sua opinião, representar o início de uma estrutura capaz de acompanhar os missionários digitais portugueses e de os ajudar a colocar o sagrado ao serviço da evangelização, e não das métricas das plataformas.

“Já identificámos os problemas das redes. Agora temos de consertar os influencers para, com os influencers, podermos consertar as redes”, resumiu.

O sacerdote reconheceu que a Igreja está organizada no campo da comunicação institucional, dispondo de gabinetes diocesanos e de profissionais atentos à qualidade da escrita e à apresentação dos conteúdos. Considera, contudo, que ainda falta transformar a comunicação em relação.

“Não chega comunicar. É preciso criar relação. Não estamos à procura de seguidores; estamos aqui com uma missão”, salientou.

Essa relação pode começar através de uma mensagem ou de uma conversa virtual, mas deve conduzir, sempre que possível, ao encontro com uma comunidade concreta. O padre Guilherme apontou como exemplo os jovens que descobrem a Igreja nas redes sociais e que, depois, devem ser incentivados a procurar uma paróquia ou a conversar com um sacerdote.

O responsável destacou também o simbolismo de o primeiro encontro nacional ter nascido no interior do país. “Não somos nós que dizemos onde o Espírito deve soprar. Se aconteceu aqui, alguma razão há de ter. O nosso nada nas mãos de Deus é tudo”, declarou.

Questionado sobre a diferença entre o público de um concerto e os participantes numa celebração religiosa, respondeu, com humor, que as pessoas “são mais participativas no concerto”. Mas apontou igualmente a necessidade de um maior envolvimento dos leigos na vida das comunidades.

“Uma fé cómoda, em que o padre faz tudo, não leva a lado nenhum”, advertiu, apelando aos batizados para que se disponibilizem para colaborar nos grupos e nas atividades pastorais.

Já sobre o espetáculo que encerrou o encontro, o sacerdote explicou que procura subir ao palco sem ficar preso a expectativas. “Quando chegar ao palco, o meu trabalho está feito. Depois, deixem-me desfrutar”, afirmou, descrevendo a atuação como uma viagem de “dança, alegria e também de fé”.

Foto: Nuno Pinto Fernandes

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