A opinião de ...

A coragem e a visão que são precisas para a região

No sábado, Alfândega da Fé acolheu um acontecimento que, para muitos, quase passou despercebido mas que para o coração da diocese foi marcante e impactante.
O I Encontro de Missionários Digitais encheu o auditório da vila ao longo da tarde e reuniu mais de três mil pessoas no concerto do Pe. Guilherme, que se seguiu. Mais gente do que a população da própria vila, que tem perto de 2500 pessoas, num concelho que totaliza cerca de 4500 habitantes.
Os cafés cheios e os restaurantes ocupados deram mostras do impacto do encontro. Num interior onde tanto se fala da dificuldade em atrair pessoas, criar movimento e dinamizar a economia, houve quem conseguisse fazê-lo. Os benefícios sentiram-se à mesa, ao balcão e nas ruas.
Mas a dimensão deste encontro merece ser avaliada também pela qualidade do que ali se ouviu. Conferencistas internacionais trouxeram intervenções que ajudaram a pensar a presença da Igreja no mundo digital, os desafios da comunicação e a responsabilidade de chegar às pessoas onde elas estão. O Papa Leão XIV associou-se através de uma mensagem. Alfândega da Fé tornou-se, por um dia, lugar de encontro de uma Igreja capaz de conversar com o mundo a partir de uma pequena vila do Nordeste Transmontano.
Há aqui uma lição para todos nós. A distância dos grandes centros não nos condena à irrelevância. Temos capacidade para acolher iniciativas com alcance internacional, mobilizar públicos e participar nas grandes conversas do nosso tempo. Para isso, precisamos de preparação, trabalho e de quem aceite correr o risco de fazer acontecer.
É por isso particularmente difícil compreender o desdém com que este encontro foi recebido por alguns dentro da própria diocese.
Ninguém tem de gostar de todos os formatos, concordar com todos os intervenientes ou identificar-se com a música de um sacerdote. Mas desvalorizar uma iniciativa desta dimensão, sem reconhecer o seu alcance, revela uma visão redutora da missão da Igreja e das possibilidades deste território.
Há um provincianismo que pouco tem a ver com o lugar onde se vive. Manifesta-se na incapacidade de reconhecer mérito ao que outros fazem, na suspeita perante uma ideia nova e na facilidade com que se diminui um trabalho em que não se participou. Quando os egos ocupam espaço a mais, até uma casa cheia parece pequena.
A Igreja tem razões acrescidas para resistir a essa tentação. Uma comunidade que procura chegar a mais pessoas deve saber acolher quem abre caminhos. E deve conseguir alegrar-se com uma iniciativa que mobiliza, suscita perguntas e leva milhares de pessoas a aproximarem-se de uma proposta nascida no seu seio. O que aconteceu em Alfândega da Fé merece ser estudado e aproveitado para dar continuidade a esse contacto.
Graças a Deus, houve a coragem do Pe. Manuel Ribeiro para levar o encontro por diante. E houve a visão de D. Nuno Almeida, Bispo de Bragança-Miranda, e o apoio que deu à sua concretização. Ambos merecem o reconhecimento pelo que ajudaram a construir.
Agora, cabe à diocese estar à altura do acontecimento: reconhecer o trabalho, aprender com a experiência e criar condições para que os seus frutos perdurem.
Alfândega da Fé mostrou que há público, interesse e capacidade.
Seria uma pena que, depois de tantas portas abertas, alguns continuassem apenas preocupados com o tamanho dos seus próprios egos.

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