A opinião de ...

A inclusão que a escola promete e a realidade que os professores vivem

A sala de aula contemporânea é, talvez, o reflexo mais fiel e visível da transformação demográfica e social que o país atravessou nas últimas décadas. Onde outrora víamos rostos e sotaques relativamente uniformes, hoje encontramos uma tapeçaria riquíssima de origens, línguas, etnias e capacidades. No entanto, esta promessa de uma “escola para todos”, consagrada na lei e nos discursos políticos, enfrenta um obstáculo severo e cada vez mais incontornável: a gritante falta de meios humanos e materiais para tornar a inclusão uma realidade vivida, e não apenas um conceito burocrático.
A pluralidade das nossas turmas é, em teoria, uma das maiores riquezas do sistema educativo. O contacto entre crianças de diferentes origens e com diferentes capacidades – sejam elas motoras, cognitivas ou sensoriais – é um catalisador fundamental para formar cidadãos tolerantes e preparados para um mundo globalizado. Contudo, a inclusão não se faz por decreto. Exige tempo, dedicação e, acima de tudo, profissionais qualificados e em número suficiente.
O que assistimos, presentemente, é a convergência alarmante de dois fenómenos: o aumento da complexidade das exigências pedagógicas e a diminuição significativa do corpo docente e técnico. Com milhares de professores à beira da reforma ou exaustos, a capacidade de dar uma resposta individualizada a cada aluno torna-se quase impossível. Quando um professor tem de gerir, sozinho, uma turma de 24 ou 25 alunos, na qual coexistem crianças que não falam português, algumas com necessidades educativas que exigem medidas adicionais de suporte à aprendizagem, e outras crianças provenientes de contextos socioeconómicos vulneráveis, o resultado é, inevitavelmente, o esgotamento. Entre o discurso político e a realidade da sala de aula existe, muitas vezes, um abismo silencioso.
Também a carência de recursos tem consequências diretas no clima escolar. Sem a supervisão e o acompanhamento adequados, os espaços de recreio – e até as salas de aula – podem tornar-se terreno fértil para a exclusão. O bullying e a discriminação alimentam-se, muitas vezes, do refúgio de quem não compreende a diferença ou de quem se sente negligenciado pelo sistema. A verdadeira luta contra o preconceito não se faz apenas com cartazes coloridos nas paredes, mas também com a presença constante de mediadores, psicólogos e professores que tenham disponibilidade emocional e física para intervir e educar.
Não podemos continuar a exigir que os professores sejam heróis solitários numa batalha que é de toda a sociedade. Se acreditamos que a escola pública é o grande motor da igualdade de oportunidades, não podemos permitir que se transforme num depósito de boas intenções sem suporte prático. Investir na carreira docente, reforçar as equipas multidisciplinares e reduzir o número de crianças por turma não são gastos: são investimentos urgentes para evitar a segmentação social e o desperdício de talentos.
A escola que queremos é aquela onde cada criança, independentemente da sua cor, origem ou limitação, se sinta segura e valorizada. Mas, para que essa escola exista fora do papel, é necessário que o Estado assuma a responsabilidade de dotar as instituições dos meios necessários. Caso contrário, continuaremos a falar de inclusão enquanto praticamos, por omissão, a mais triste das exclusões.
Talvez por isso faça tanto sentido recordar Helen Keller: “Sozinhos podemos fazer tão pouco; juntos podemos fazer muito”.

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