Quando a castanha vale menos do que o gasóleo
Quem já apanhou castanhas sabe como doem os picos dos ouriços nos dedos. Mas há uma dor maior. Chegar ao fim da campanha, olhar para o trabalho de uma família e perceber que mal dá para pagar as despesas. Este ano, em Bragança, um quilo de castanha chega a ser pago ao produtor entre 1,20 e 1,50 euros, enquanto o preço do gasóleo agrícola ultrapassa os 1,80 euros por litro.
Durante décadas, falou-se da castanha como o petróleo de Trás-os-Montes, o nosso “ouro negro”. E não era apenas uma maneira de falar. Era com ela que tantas famílias pagavam as contas, criavam os filhos e continuavam na sua terra. Hoje, custa aceitar que esse “ouro” valha menos do que o combustível usado para o colher.
Quem vive dos soutos conhece as manhãs frias e a esperança de cada colheita. Mas também a falta de braços para a apanha, os custos que sobem e a incerteza. A doença da tinta, o cancro e a vespa-das-galhas castigam os castanheiros. A seca e o calor extremo fazem o resto. E, no fim, é o produtor que fica a fazer contas. Que jovem quererá continuar se vê os pais envelhecer a trabalhar sem garantia de rendimento?
O problema não acaba nos soutos. Sente-se nas aldeias, onde, ano após ano, mais uma casa fica sem luz ao fim do dia. Parte uma família, falta uma voz na rua, fica um terreno por cuidar. Com quem parte vão também saberes, pequenos negócios e gestos de entreajuda que davam vida à Comunidade. E cada porta que se fecha leva consigo um pouco da aldeia.
Entretanto, a concorrência chega de longe, até do Chile. O debate sobre o Mercosul lembra-nos que os mercados são cada vez mais abertos. Não precisamos de fechar fronteiras, mas de garantir condições justas a quem produz aqui, com custos elevados e dificuldades que não aparecem nas etiquetas dos supermercados.
É urgente cuidar dos soutos, combater as pragas, gerir a água, facilitar a mecanização e valorizar a transformação da castanha na região. Não faz sentido que quem assume os riscos e o trabalho fique com a parte mais pequena do valor.
Há ainda uma contradição que o país não pode ignorar. Nas grandes cidades, tantas famílias não conseguem pagar uma casa. Nas nossas aldeias, há casas fechadas e espaço para voltar a começar. Mas ninguém regressa apenas pela paisagem. É preciso emprego, serviços, escolas, saúde, transportes e condições reais para criar uma família.
É aqui que o Pacto para o Interior pode e deve ir mais longe. Precisamos de um estatuto de interioridade que reconheça o que custa viver longe dos grandes centros, como se reconhecem as dificuldades da insularidade. Que dê às famílias razões para ficar e atraia outras que queiram construir aqui o seu futuro. Que ajude as empresas a criar emprego e as aldeias a manter serviços essenciais. Isso exige incentivos fiscais e investimento que chegue efetivamente onde faz falta.
Porque pior do que a castanha valer menos do que o gasóleo será chegar o dia em que já não haja ninguém para a apanhar.
