Saúde, Ciência e Cidadania III – Que médicos desejamos?
No prefácio à obra “Que médicos queremos” do Prof. Dr. Jorge Cruz (Almedina, 2012), o Prof. Daniel Serrão faz a seguinte pergunta (pg. 6): «Que médicos querem os Cidadãos, o Governo, os legisladores, as Escolas de Medicina, o Serviço Nacional de Saúde, a Ordem Profissional?» Podemos afirmar com clareza que todas estas entidades têm legitimidade para fazerem a pergunta. Mas, como acrescenta Daniel Serrão, a maior dificuldade é a resposta que podem dar os cidadãos. As razões são variadas: cada cidadão tem as suas perceções e os seus sentimentos no contacto com os serviços de saúde; cada cidadão tem a ‘sua doença’, bem sua, a que ele sente; cada cidadão apresenta o seu grau de literacia sobre saúde; cada cidadão atribui uma dada importância à relação com o médico / profissionais, ou ao ambiente que o acolhe.
O autor escreve a pg. 26: «a medicina é uma antiquíssima atividade humana que, no que lhe é essencial, não muda nunca; e o essencial é: um ser humano inquieto ou perturbado procura outro ser humano e pede-lhe ajuda».
Reflitamos sobre esta afirmação.
Em primeiro lugar, há uma situação de fragilidade, pois que se encontram dois seres humanos; um, sofre como consequência de um qualquer padecimento, outro procura uma solução no vasto campo da incerteza acerca da eficácia do seu esforço. Mas é evidente que, apoiado no conhecimento, nos métodos técnico-científicos, no “Estado da Arte”, nos recursos disponíveis, também se encontra numa situação de confronto entre o que pode e o que deve fazer. Esta incerteza assume natureza emocional e existencial.
Em segundo lugar, é a questão da relação que se estabelece: a relação médico-doente. Na verdade, na esteira do que ensina o filósofo da medicina Edmund Pellegrino (as suas teses são a fonte de reflexão de Jorge Cruz), o médico (agindo individualmente ou numa equipa) detém as qualificações da profissão; todavia, está envolvido num “processo” de compromisso e dedicação, pouco ou nada comum nas outras profissões. A sociedade espera dele a sua pronta colaboração, humana e ética, seja qual for a circunstância em que se encontre: no serviço ou fora dele (esta disponibilidade encontra-se definida na lei civil e no seu código deontológico).
Em terceiro lugar, é oportuno lembrar que o médico assume – deontológica e eticamente – respeito pela dignidade humana, independentemente da idade, género, cor da pele, condição social, devendo utilizar os conhecimentos e a tecnologia com rigor e de forma consentida. Ou seja, ambos, médico e doente, devem atuar de forma livre e autónoma, após informação oportuna prestada pelo médico.
Ora, perante tal argumentário inquestionável (que está longe de esgotar-se nestas linhas, porque muitíssimas outras questões médicas estão envolvidas), é justo afirmar-se o seguinte: o médico é um ser humano e, como tal, deve ser respeitado nos seus direitos. Tem direito ao seu tempo livre, ao lazer, a ser pago de acordo com as suas competências e disponibilidade. Tem direito a ser tratado com urbanidade e respeito por quem o procura e pelos serviços que contratam a sua atividade. Alguém duvida?
