Arte que obriga a pensar
Em Londres, na Waterloo Place, coração simbólico de uma cidade de muitos e belos monumentos e memórias do poder, o artista Banksy voltou a fazer o que melhor sabe: interromper a paisagem e o corre-corre da vida para obrigar a pensar.
A sua nova escultura, ali instalada sem autorização, representa um homem de fato, que avança sobre um pedestal enquanto uma grande bandeira lhe cobre o rosto, com um pé já fora dele e a dirigir-se ao vazio.
A imagem é simples, mas inquietante: a bandeira que é símbolo de pertença, comunidade e gesta histórica, tapa-lhe a vista. O homem não a contempla, não a interpreta nem a critica pois avança cego por ela, sem ver nem raciocinar o que surge à frente. No pedestal dos heróis, surge esta figura vulnerável, quase ridícula, prestes a cair.
Mesmo não concordando com algumas das suas obras e simbolismos plasmados, reconheço que há muito mérito em Banksy pois, desde logo, apresenta obras que nos desinstalam, abalam as nossas certezas e nos põem a pensar. Talvez seja esse mesmo o seu maior mérito, o de recordar que a arte pública não decora praças nem confirma consensos, mas desinstala convicções. Em Bragança, onde nos orgulhamos do património, isto calharia mesmo a propósito.
Nesta escultura, Banksy não mostra um pedestal de grandeza autoritária, mas de fragilidade e o alerta parece-me assim particularmente pertinente. Não rejeitando o símbolo, questiona o que representam: que pertenças, que encontro, que responsabilidades partilhadas? Afinal parece que dirige a nós a pergunta sobre que bandeiras defendemos? E se quando essas bandeiras nos tapam os olhos ao bem coletivo, com ideologias e interesses pequenos e egoístas, não se transformarão, em nós, instrumentos de cegueira?
Banksy talvez nos recorde que defender bandeiras exige pensar com elas, mas também através delas e, se preciso, para além delas.
A este propósito, recordo Kant, quando refere que a maioridade humana começa quando cada um ousa usar o próprio entendimento, tornando o pensamento um ato de coragem para discernir e não repetir slogans ou fidelidades herdadas. Ou como nos interpela Hannah Arendt sobre o perigo maior que nem sempre surge com rosto monstruoso, mas na normalidade de quem deixa de pensar e apenas segue.
A figura de Banksy inquieta precisamente por isso: parece segura, bem vestida, em marcha, mas avança sem ver, correndo o risco de deixar também de reconhecer os outros e o futuro comum.
No hoje social, que bandeiras nos orientam? Que ideias nos movem? Que futuro queremos e estamos a construir? Um território, um concelho, uma cidade, uma vila ou freguesia não vive apenas de memória, património e identidade, embora tudo isso seja precioso. Vive também da capacidade de imaginar, discutir e decidir o amanhã que se deseja, com todos, para criar condições para que todos aqui encontrem razões para ficar, regressar ou vir viver aqui a sua vida.
Por isso precisamos de todos, sem bandeiras que afastem da colaboração uns com os outros. Precisamos de confiança lúcida em instituições transparentes, autarcas que prestam contas, comunidades ativas, escolas que ensinam a pensar, como sabemos que acontece com as novas gerações a questionar tudo, empresas responsáveis, famílias sólidas e cidadãos que não ignoram o que importa.
A escultura de Banksy fala de Londres, mas também de nós. Entre a bandeira que tapa o rosto e o pensamento que abre caminho, há uma escolha decisiva.
Talvez Bragança precise disto mesmo: que cada um reconheça as suas bandeiras, mas sem usá-las como muros, transformá-las em pontes de encontro, de colaboração sem medos e de compromisso com um futuro que valha a pena construir aqui, entre nós.
