Escolas e democracia
O texto do Prof. José Augusto Pacheco (JAP), Público, 21 de Abril de 2026, Que conhecimento conta na escola?, fez-me reler os diálogos de Platão: Teeteto e O Sofista (edições comentadas da Fundação Calouste Gulbenkian), e Protágoras (Platão – Diálogos, Edições Melhoramentos). Nestes diálogos são evocadas as conversas do sábio Sócrates com os discípulos sobre as relações do conhecimento com: (i) a alma (Protágoras); (ii) qualquer mercadoria (O Sofista); (iii) a verdade e virtude (Teeteto). Lições para reter, porque, no essencial, a realidade atual exige grande reflexão. Como escreve JAP, «Nada na escola é neutro, porque tudo é ideológico, no sentido em que segue orientações…» JAP critica, entre outros aspetos, a “padronização curricular”, que manieta e igualiza; defende, sim, a reconstrução subjetiva de experiências e diálogo.
Tenho dois netos que frequentam o sistema de ensino no Reino Unido. Um está no 8.º numa escola internacional em Londres (International Scholl of London - ISL), o outro frequenta o 3.º ano numa escola pública, em Newcastle.
Como fui docente em todos os graus do ensino, interessei-me por saber o sistema de educação britânica. Farei duas observações, sem juízos de valor, e duas perguntas.
Primeira: O sistema educacional britânico é descentralizado, predominantemente público, gratuito, composto por blocos escolares: (i) 0-5 anos: educação infantil; (ii) 5-11 anos: educação primária; (iii)11-16 anos: educação secundária (conclusão: certificado final); (iv) 16-18 anos, não obrigatório, mas necessário para aceder à universidade, incluindo dois tipos de abordagem: académico ou técnico; (v) 18+anos – acesso às universidades.
O Pedro (dupla nacionalidade) frequenta uma escola pública em Newcastle, onde as crianças são despertas para a descoberta social e ambiental. Frequentemente, são convidadas pessoas do exterior para animar a aprendizagem em diversos temas. Os alunos “saem” frequentemente do ambiente da sala.
Segunda: As escolas privadas assumem liberdade face ao currículo nacional. Exemplos: (i) escolas independentes, financiadas por propinas; não sendo obrigatório seguir o currículo nacional, têm maior flexibilidade, turmas mais reduzidas com múltiplas atividades; (ii) escolas religiosas, como anglicanas ou católicas, financiadas pelo Estado, com critérios de admissão próprios.
As escolas independentes podem seguir vários modelos: (a) “Método Montessori” (primado do respeito pelo ritmo natural da criança); (b) “Escolas Democráticas” (valorização da liberdade e autogoverno); (c) “Modelo Ar livre” (foco no contacto com a natureza); (d) “Ensino Vocacional e Técnico” (a partir dos 16 anos para jovens que prefiram uma via menos teórica, preparando-se para o mercado de trabalho ou para cursos universitários técnicos, através do desenvolvimento de projetos); (e) “Escolas Internacionais” (com currículos disciplinares logicamente interligados), procuradas por famílias expatriadas. O Xavier frequenta a ISL, onde é feita a agregação de disciplinas e existe uma componente significativa de projetos musicais, de teatro, artes plásticas… valorizando a criatividade num ambiente multidimensional. Uma nota pessoal: a ISL convidou-me, em dois momentos distintos, para conversar com crianças entre os 8 e os 9 anos sobre um dos meus livros infantis na aula de português (brasileiros, angolanos e portugueses).
Perguntas: O que precisamos de promover para construir uma escola reflexiva, democrática? Qual é a verdadeira função da educação?
