Tempos de alienação
Vivemos um tempo de incertezas. A instabilidade instalou-se nas grandes certezas que garantiam algum equilíbrio às lutas e jogos de poder. Os democratas parecem preferir ir a reboque dos movimentos autocráticos a lutar pelos valores que dizem ter garantido a sua paz durante 81 anos. O Dinheiro e o Poder são agora os factores que determinam as decisões oportunistas. A luta pelas fontes energéticas e, em breve, pelas matérias raras (lítio, urânio e outras) e pela água, fizeram esquecer os princípios essenciais das democracias.
Regressámos a um passado com 375 anos, a 1651, o ano em que Thomas Hobbes teorizou os princípios do Estado Soberano, na forma de Estado Autoritário, senhor da vida e dos bens dos cidadãos que a ele demandem protecção. Esse Estado Autoritário proposto por Hobbes na obra Leviathan ou Estado Monstro, é dono e senhor da vida e da liberdade dos cidadãos que nele delegaram a sua protecção para poderem viver em segurança. A divinização do Poder do Monarca era outro pilar deste modelo de Estado, baseado ainda na aliança Poder Temporal e Poder Espiritual (o Monarca tem numa mão o gládio e na outra o ceptro de Pedro, escreveu Hobbes). Olhe-se para os EUA de hoje.
Desde então, e a partir de outro autor britânico, John Locke (1690), os filósofos políticos ocidentais começaram a construir uma alternativa ao Estado Autoritário.
Tal alternativa elegeu a negociação entre os diferentes interesses políticos e económicos através dos respectivos representantes que disputaram o Poder e as leis em parlamentos eleitos, dando assim origem às democracias, sempre controladas pelos poderes económicos e financeiros. Ao mesmo tempo, exigiram a separação da Religião em relação ao Estado.
Porquê, então, a crise das democracias actuais? Muito simplesmente porque os poderes económicos e financeiros se alteraram passando do Ocidente para o Oriente com o beneplácito dos dirigentes do Ocidente. Teriam estes dirigentes alternativa à submissão? Na lógica democrática, de negociação e de busca de equilíbrio de interesses e de poder, não. Tê-la-iam se assumissem o confronto, extremamente penoso nas suas consequências.
Vemos assim um Donald Trump a fazer-se de forte quando perde em toda a linha, militar e políticamente, e vemos um MNE Português a dizer que Portugal só autorizou o uso da Base das Lajes para o ataque dos EUA ao Irão porque os EUA o solicitaram, sabendo todos nós que só houve pedido porque Portugal o solicitou.
Os democratas demitiram-se do seu ideário e dos respectivos valores submetendo-se aos poderes do momento. Emanuel Todd profetizou a derrota no início do terceiro milénio no livro «Depois do Império, 2003». Mais recentemente, em a Derrota do Ocidente, 2018, este autor defende que é a perda de referências morais e culturais a par de uma educação medíocre que conduz o Ocidente ao descalabro.
Há outros factores a acrescer para a derrota do Ocidente, mas quando se desiste de lutar e de afirmar os nossos valores essenciais; quando se tem medo de afirmar o rigor, o mérito e a exigência de competência e de orientação para as políticas públicas, estamos a afundar-nos na mediocridade, própria da alienação cultural e da ausência de estratégias de superação.
