Entre Bragança e Puebla, uma promessa que (não) pode ficar pelo caminho
Por estes dias, soube-se que a estrada de ligação entre Bragança e Puebla de Sanabria obteve a Declaração de Impacto Ambiental favorável, embora condicionada, mas perdeu o financiamento do PRR.
Tal informação deve ter deixado cada um de nós com um sentimento ambivalente: por um lado, parece estar a abrir-se uma porta, por outro, percebe-se que a chave passou para outras mãos.
Claro está que se lamenta profundamente esta última notícia, assim como os atrasos, os bloqueios e os desencontros processuais, bem como a incapacidade de fazer coincidir as necessidades do nosso território com as exigências administrativas e políticas, uma realidade que este executivo municipal herdou dos anteriores e pretende resolver.
Este é mais um exemplo, que se soma outros, de que vivemos demasiadas vezes sob o signo do “quase” e do “ainda não”: quase há estudos, quase há calendário, quase há parecer... mas ainda não há financiamento, ainda não há concurso e muito menos a obra foi concretizada.
A distância à Puebla de Sanábria, que não é tanto medida em quilómetros como no tempo, decorrente da via estreita, do piso sofrível, do traçado sinuoso e, de onde em onde, perigoso, mantém-se cristalizada. Já nem falo do que se apresenta do lado espanhol. Ainda no pretérito domingo, por força da necessidade de ir a Santiago de Compostela, em deslocação pela estrada atual, via Rio de Onor, mais uma vez me foi dado experienciar essa realidade.
Uma distância que poderia ser muito mais curta no tempo mas que, ao longo de décadas, se foi adiando pelo centralismo governativo, pelas hesitações políticas e outras decisões erráticas.
Numa Europa e num tempo em que se derrubaram as fronteiras de ordem geográfica, económica e até cultural e social, de que Rio de Onor já fora precursor, é preciso agora derrubar a fronteira do não compromisso político.
Esta estrada, reivindicada por razões óbvias, como aproximar e facilitar o acesso de Bragança à alta velocidade ferroviária, encurtar a ligação ao norte de Espanha, valorizar a relação com Castela e Leão e abre novas possibilidades para empresas, estudantes, turistas e instituições, é também decisiva para o nosso futuro a médio e longo prazo.
Refira-se que não se configura como uma reivindicação apenas local e que, nesse sentido, se deve apresentar como uma necessidade regional, uma exigência nacional e mesmo uma evidência ibérica.
Pensemos que os territórios melhor ligados beneficiam, de forma clara, com maior capacidade de atrair investimento e fixar população, projetando-se para além dos limites territoriais e procurando diferentes alternativas de desenvolvimento.
Por isso, aqui a questão não é tanto de chegar mais depressa, mas de proporcionar ligação a outros grandes eixos de mobilidade, a outras linhas de destino, diga-se mesmo a outros “corredores de futuro”, sendo um exemplo simbólico e estratégico de um instrumento de justiça territorial.
Como se disse anteriormente, o desenvolvimento de Bragança não se constrói com advérbios de aproximação mas com contratos e execução.
Neste sentido, a palavra dada, em Bragança, pelo Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, de que esta obra não deixaria de se fazer por causa dos atrasos e que seriam encontradas outras fontes de financiamento, tem, por isso, de valer mais do que uma frase de circunstância. O compromisso político não pode ficar suspenso entre o entusiasmo de campanha e o esquecimento governativo. Ele ganhou gravidade política e deve agora ser honrado.
Em todo o caso, convém sublinhar que esta estrada não será uma concessão graciosa do poder central a Bragança e ao território transmontano, mas uma opção estratégica importante para o próprio país, pois se afirma como uma porta de cooperação e de futuro. Para todos.
