Nordeste Transmontano

Macedo de Cavaleiros realizou primeiro encontro de Famílias de Acolhimento para promover esta medida junto das entidades que a decretam

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 05/21/2026 - 15:06

Decretar mais o Acolhimento Familiar em vez do Acolhimento Residencial em instituições foi o objetivo do I Encontro de Acolhimento Familiar do Nordeste Transmontano, que decorreu sexta-feira, em Macedo de Cavaleiros, no Centro D. Abílio Vaz das Neves e que reuniu diversas entidades e profissionais do setor.

O distrito tem cada vez mais Famílias de Acolhimento capacitadas mas falta que as entidades que decidem estejam sensibilizadas para isso.

"O objetivo deste encontro foi reunir profissionais, a sociedade em geral, magistrados, Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (estão cá representadas as 12 do distrito), com o intuito de sensibilizar para que mais vezes seja decretada a medida de acolhimento familiar em vez da medida de acolhimento residencial", explicou Sónia Almeida coordenadora da única valência do género existente no Nordeste Transmontano.

A mesma responsável explicou que "nas crianças dos 0 aos 6 anos, os estudos científicos indicam que para o seu bom desenvolvimento, devem crescer no seio de uma família". "Apesar de as instituições serem maravilhosas, e nós também temos cá a nossa casa de acolhimento residencial, mas a rotatividade dos funcionários e o facto de não haver um a dois cuidadores no máximo, por causa das questões de vinculação para uma só criança, faz a diferença", explicou.
No distrito de Bragança, só há pouco tempo é que surgiram as famílias de acolhimento.

"Começámos a trabalhar em junho de 2023, data em que assinámos o acordo. Em setembro deu-se início à resposta com o comportamento de uma equipa multidisciplinar. E, neste momento, temos nove famílias, com nove crianças em famílias de acolhimento, mais oito famílias certificadas, duas famílias que neste momento estão suspensas, quatro famílias em avaliação que já fizeram a formação e já passaram todo o processo e que estão na fase final da avaliação psicossocial, e temos um grupo de cinco famílias que aguarda pela formação inicial", adiantou a mesma responsável.

Mesmo assim, Sónia Almeida sublinha que "ainda faltam famílias de acolhimento na região".

"Nós temos acordo para 30. Tomáramos nós que no distrito nenhuma criança estivesse em acolhimento residencial e que todas pudessem estar em família. É curioso que nós recebemos crianças de outros distritos. Temos, por exemplo, uma família que acolheu três irmãos que vieram da Covilhã", frisou.

Para Pedro Lima, presidente da Câmara de Vila Flor e da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, "trata-se às vezes da incapacidade de decidir, de decidir tarde de mais, tanto quando se retira como quando se entrega. Portanto, pelo que eu entendo, temos que ser um pouco mais céleres. Não estou a dizer que concordo, claro que não, toda a gente concorda que os filhos estão bem com os pais, mas, no entanto, quando há certos indicadores, devemos ter a capacidade de decidir de uma forma perentória, a bem do interesse superior da criança, e de a entregar o mais rapidamente possível, de novo, a um ambiente familiar que consiga dar-lhe a melhor estrutura, o melhor crescimento possível, para que se transforme num cidadão que participe e sem handicaps".

Para o presidente da CIM, que congrega nove dos 12 concelhos do distrito de Bragança, trata-se de uma escolha, trata-se de uma capacidade decisória que deve existir na nossa sociedade. "É difícil, claro que sim, para alguém decidir determinar a retirada de uma criança. Mais difícil ainda se torna nos dias de hoje, com tanto escrutínio, entregá-la a uma família de acolhimento. Mas temos, sem dúvida, que criar estes laços entre nós", sublinhou.

Presentes neste encontro estiveram diversos instituições de outros distritos, como Castelo Branco, Viseu ou Porto.

Na sessão de abertura, o Bispo da Diocese de Bragança-Miranda, D. Nuno Almeida, sublinhou que "na família é decisivo o amor forte, indissolúvel e estável". "Um amor com estas características gera esperança e confiança. E a confiança pode gerar comunhão, que é um fator de coesão emocional para a comunidade familiar", disse.

No entanto, lembrou que "a construção da unidade familiar é uma parte da experiência a construir, pois a família deve igualmente habilitar os seus membros para a aventura da autonomia. A família é um ninho ou regaço, sim, mas deve ser também uma escola de voo. É um porto de abrigo, sem deixar de ser um impulso à navegação em mar aberto. Viver isso com naturalidade, sem ansiedade nem com o peso da culpa, é uma sabedoria que se vai adquirindo. No processo de aquisição desta sabedoria, há três pontos que convém nunca perder de vista. O primeiro é compreender que a família vive numa reconciliação permanente, o que implica uma descoberta e redescoberta permanentes. Não basta o saber do que era: é necessário a disponibilidade para reconhecer o que a cada momento é e que está a acontecer agora. Muito facilmente a família se torna irreconhecível de um dia para outro e os seus membros como que estranhos. A prática da hospitalidade radical que define o amor é, por isso, um trabalho interminável.

Não há alternativa à troca atenta de olhares de uns para com os outros e sempre de coração desarmado, para aprender do outro aquilo que só ele nos pode ensinar. Pensar que os pais conhecem os filhos de uma vez para sempre, ou vice-versa, é um erro grosseiro. O verdadeiro conhecimento é aquele que aceita confrontar-se com o desconhecido que imediatamente não vemos, mas que está lá", sublinhou D. Nuno Almeida.

O prelado frisou que "há que valorizar o papel da esperança". "Uma família é uma construção assumidamente colaborativa, fruto da cooperação dos seus membros, no sentido que depende de todos no aqui e no agora. Mas é uma história maior do que aquela que o presente histórico pode decidir. O modo original como cada geração interpreta as raízes ou a direção surpreendente que empresta ao próprio florescer mostram como a família é sobretudo um fruto da esperança. A felicidade da família depende sempre do investimento em esperança que está disposta a realizar.

A vida cristã está inevitavelmente “obrigada” a ser testemunho da Esperança e da Confiança.

É possível ser testemunhas de esperança e confiança se cultivarmos a “arte cristã de amar”", disse o Bispo de Bragança-Miranda.

D. Nuno Almeida terminou a sua intervenção lembrando as palavras do Papa Francisco em 2022, no Encontro Mundial das Famílias: “Ao afirmarmos a beleza da família, sentimos mais do que nunca que devemos defendê-la. Não permitamos que seja inquinada pelo veneno do egoísmo, do individualismo, da cultura da indiferença e do descarte, e perca assim o seu “DNA” que é o acolhimento e o espírito de serviço. Os traços próprios da família: o acolhimento e o espírito de serviço dentro da família”".

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