Brasil - II
Nos anos de 1967-1968 e parte de 1969, em Coimbra, estudante voluntário, apercebi-me da presença de algumas dezenas de estudantes brasileiros em várias faculdades. Foi um fenómeno que ocorreu igualmente em Lisboa e no Porto. Faço, desde já, uma ressalva: estive indiretamente envolvido no meio estudantil e nas lutas académicas no princípio de 1969. Frequentei, a espaços breves, locais onde a malta se reunia – na Clepsidra, especialmente – e ali escutei, ao fundo do café, estudantes e professores (alguns bem conhecidos) que faziam ouvir a sua voz contra a ditadura e a guerra colonial. Era ponto de encontro de tertúlias de forte sociabilidade, cultura e revolta. Também a espaços, ouvi música trazida pelos brasileiros que se misturavam com os colegas portugueses, trazendo novas ideias. Havia uma forte conexão entre os estudantes dos dois lados do Atlântico. Os brasileiros reuniam-se, cultivando os seus costumes, música, em especial, de forma aberta e solidária com os colegas de cá.
A ida para a Guiné, feito soldado, interrompeu esta época vivida como trabalhador-estudante. O tempo decorreu e…depois, o 25 de Abril. Finalmente.
Faço esta nota introdutória, para recordar alguns factos e sugerir o que me parece, agora, oportuno.
O escritor português João de Barros (1881-1960) refere na sua obra Adeus ao Brasil (mencionada no texto anterior do MdB, ps. 97-98) que houve sempre estudantes brasileiros que estudaram em Coimbra. Seja-me permitido recordar o primeiro poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864, pioneiro do romantismo brasileiro) que escreveu Canção de Exílio, onde, carregando saudade, lembrou Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá…
Na década 40-50, como acima referi, João de Barros, vangloriava-se deste intercâmbio: alguns estudantes brasileiros vieram para Portugal focando-se em especializações profissionais. Obviamente, este relacionamento interessava aos governos ditatoriais de ambos os Países. Para Portugal, era uma mãozinha ao luso-tropicalismo de Gilberto Freyre, assim pretendendo mostrar ao mundo, aliás sem grande êxito, Portugal como Nação plurirracial. Aconteceu, todavia, um generalizado aprofundamento político contrário ao interesse daqueles governos, motivado pelos estudantes portugueses e brasileiros. E africanos que residiam em Coimbra e Lisboa…
Como é sabido, na década de 60-70, saiu reforçada a necessidade de uma mudança, influenciada pela crise social e política de 1968, em França.
Na presente época de afluência de milhares de pessoas provenientes do Brasil, é preciso ter em conta, sem temor, que os brasileiros estão connosco de forma aberta, solidária e construtiva. Não há aqui qualquer retórica. O que escrevo vale para os nossos irmãos africanos. Urge corporizar dignamente a comunidade lusófona.
Ora, olhando para o espetro político-partidário atual, andam alguns poderosos de momento, verdadeiros censores a denegrir esta comunidade fraterna, eivados de idiossincrasias negativas, praticando ações hostis. Fazem-se de esquecidos dos fenómenos migratórios portugueses que estabeleceram, por necessidade, a ponte entre os dois lados do Atlântico, ou atravessaram colinas e rios à procura de melhor vida por esta Europa, agora sonâmbula, perdida. Pelo que me toca: navigare necesse est, vivere non est necesse. Abramos a porta à fraternidade entre os Povos.
