Ainda a primeira volta das presidenciais
A primeira volta da eleição presidencial realizada a 18 de janeiro exige uma reflexão que vá além da mera leitura dos números. Não apenas pela sua dimensão eleitoral imediata, mas sobretudo pelas consequências políticas que projeta sobre o sistema partidário e sobre o equilíbrio institucional do país.
Desde logo, destaca-se o aumento significativo da participação eleitoral. A nível nacional, passou de 39,30% em 2021 para 52,34%, e no distrito de Bragança de 33,28% para 48,37%. Este acréscimo explica-se por duas ordens de razões. Por um lado, estava em causa a escolha de um novo Chefe de Estado, fator que tradicionalmente mobiliza mais o eleitorado. Por outro, assiste-se a uma crescente polarização do debate político, fenómeno que se tem vindo a intensificar e que se traduz quer na fragmentação do sistema partidário, quer na radicalização de alguns discursos.
Os resultados confirmaram, no essencial, as tendências antecipadas pelas sondagens. António José Seguro foi o candidato mais votado, ultrapassando a barreira dos 30%, um resultado particularmente expressivo se atendermos ao ponto de partida da sua candidatura e à ausência de entusiasmo generalizado dentro do Partido Socialista. Seguro enfrentou críticas veladas de sectores próximos do “costismo” e nunca foi um candidato consensual. Ainda assim, conseguiu mobilizar um eleitorado alargado. No distrito de Bragança, obteve 30,79% dos votos, um valor muito superior aos 10,76% alcançados por Ana Gomes em 2021.
Este desempenho pode explicar-se por três fatores determinantes. Em primeiro lugar, pela concentração do voto útil à esquerda, que conduziu ao quase desaparecimento eleitoral dos candidatos apoiados por partidos à esquerda do PS. Em segundo lugar, pela fragmentação da direita moderada ou tradicional, cujas campanhas, marcadas por ataques pessoais e estratégias negativas, acabaram por afetar a credibilidade e o perfil institucional desses candidatos. Em terceiro lugar, Seguro foi o único que, desde o início, adotou um discurso e uma postura institucional que os eleitores associam à função presidencial.
André Ventura surgiu como o segundo candidato mais votado, garantindo o acesso à segunda volta. O crescimento eleitoral foi expressivo: de cerca de 493 mil votos em 2021 passou para mais de 1,29 milhões. Este resultado confirma a solidez da sua base eleitoral e a capacidade mobilizadora do seu discurso junto de eleitorados mais conservadores. É verdade que perdeu votos relativamente às legislativas, mas importa sublinhar que a ideia de Ventura Presidente continua a ser menos mobilizadora do que a de Ventura Primeiro-Ministro de que muitos ainda não desistiram. Ainda assim, no distrito de Bragança, contrariou esta tendência nacional, já que Ventura conquistou agora mais votos do que o Chega nas últimas legislativas.
Cotrim de Figueiredo registou um crescimento eleitoral muito significativo, quer a nível nacional quer distrital. A nível nacional, superou largamente o resultado da Iniciativa Liberal nas legislativas, e em Bragança obteve um salto particularmente expressivo face a 2021. Apesar disso, ficou apenas na quinta posição no distrito, confirmando o perfil eleitoral mais conservador e envelhecido de Bragança.
O Almirante Gouveia e Melo, durante meses apontado como favorito, acabou por ficar aquém das expectativas. O facto de não ter apoio partidário não explica, por si só, o resultado. Pesaram negativamente a sua dificuldade em lidar com temas centrais da agenda política durante os debates televisivos, a tendência para se refugiar em matérias de defesa e geopolítica e a perda de um registo institucional, quando optou por uma estratégia de confronto pessoal com Marques Mendes.
Este último obteve, a nível nacional, um dos piores, se não mesmo o pior dos resultados eleitorais alcançados por uma candidatura apoiada pelo PSD que, recorde-se, ao longo do ano de 2025 venceu as eleições legislativas e as eleições autárquicas. Marques Mendes alcançou a nível nacional pouco mais de 11% dos votos, ainda que a nível distrital o resultado tenha alcançado os 16,78%. O desastre eleitoral do candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS justifica-se por três razões. Primeira, a falta de simpatia e de entusiasmo que Marques Mendes enquanto político sempre mereceu das bases do partido, que já há vinte anos se mobilizaram para impedir a sua reeleição para um segundo mandato na liderança do PSD. Segunda, a falta de consenso dentro do partido em torno deste candidato, tornando óbvias as divisões entre líderes de opinião interna que se mobilizaram no apoio público a outros candidatos. Terceira, a completa ausência de uma estratégia séria e eficaz de campanha aos mais diversos níveis, que resultou num exercício amador e embaraçoso para todos quantos militam nos partidos que apoiaram este candidato.
Não posso deixar também de constatar que o candidato apoiado pelo PSD não venceu a eleição em nenhum dos doze concelhos que compõem o nosso distrito e que ao longo de 50 anos quase sempre favoreceu os social-democratas. Não creio que isso represente o definhamento do PSD no distrito de Bragança, mas preocupa o precedente que abre na normalização do voto em candidatos de um partido que apenas não elegeu representação parlamentar neste distrito e que sempre teve dificuldade em cá se implantar. A vitória de Ventura em alguns dos concelhos do nosso distrito devem merecer uma atenção especial da parte das lideranças distrital e concelhias do PSD.
Esta eleição teve dois grandes derrotados políticos: Montenegro, porque Mendes foi uma escolha pessoal do líder do PSD e ratificada pelos órgãos nacionais, e Costa, que procurou acabar politicamente com Seguro e com os seus apoiantes durante o seu consulado à frente dos socialistas.
A derrota do Primeiro-Ministro, pelo seu próprio partido, já que as estruturas e as bases, contrariamente aos apelos que lhe foram lançados, não se mobilizaram no apoio e voto em Mendes, conduzirá Montenegro e o próprio PSD a uma posição política delicada. Montenegro confrontar-se-á com um Presidente da República que a partir de Belém procurará reconstruir e reforçar o Partido Socialista, fortalecendo-o para enfraquecer o Governo, que se verá confrontado com a necessidade de demonstrar que a liderança política do centro-direita e da direita continua a ser exercida pelo partido que o apoia, apesar de não dispor de uma maioria parlamentar. Alternativamente, confrontar-se-á com um Presidente da República com um perfil mais interventivo e assertivo, que conta com um número de deputados cujo voto pode ser determinante para aprovar orçamentos e reformas estruturais sem colagem ou dependência ao Partido Socialista, a qual, a acontecer, confirmaria a ideia de uma direita já não liderada por Montenegro e pelo PSD, mas antes por Ventura e pelo Chega.
A derrota de Costa representa o início do fim dos últimos vestígios do “costismo” no Partido Socialista e uma deslocação do PS para o centro político parlamentar, o que, além de deixar Costa mais só em Bruxelas, criará maior pressão sobre o PSD no sentido de manter a confiança do eleitorado moderado do centro sem que tal implique uma colagem ao Partido Socialista que poderia pressionar ainda mais o PSD à direita.
Os tempos que se avizinham serão desafiantes para Montenegro e para o PSD, que ou abandonam o paradigma de gestão corrente e quotidiana como modelo de governação e começam a fazer as reformas exigidas pelos problemas nacionais, ou correm o risco de perder o poder num horizonte temporal não muito distante.
Nos próximos meses, os militantes do PSD e do PS serão chamados a decidir lideranças internas e políticas. Ver-se-á então que impacto têm nas dinâmicas políticas internas que irão surgir os resultados da eleição presidencial em curso.
