A opinião de ...

Polícias e Bandidos

De forma dura e inesperada, fomos surpreendidos, recentemente, com notícias que nos davam conta de fortes evidências da existência de sevícias e atos de tortura, levados a cabo por agentes da autoridade na esquadra do Rato em Lisboa. Ainda não se tinham apagado os ecos de maus tratos e inadmissíveis humilhações a emigrantes, igualmente protagonizados por forças de segurança. Obviamente que estes grupos são excrescências das organizações de que fazem parte, mas, não arrastando consigo as respetivas corporações que integram, também não podem ser toleradas só por a elas pertencerem. Há muitos séculos que a sabedoria popular nos alerta para a inegável evidência que o hábito não faz o monge. Igualmente a farda não garante a correção de trato de quem a usa.
É assim que devemos olhar para estes fenómenos, condenando-os, obviamente, na esperança que as próprias organizações usem os seus próprios meios e mecanismos para os prevenirem e sancionar quando ocorram.
Acontece que, na nossa praça, há um político que se notabilizou pelo apoio incondicional às forças de segurança, não só quando estas agem de forma justa, proporcional e adequada às circunstâncias, mas igualmente quando abusam dos poderes de que estão investidas ultrapassando os limites legais e morais. Sempre lesto em vir reclamar ampla solidariedade sempre que estas são, de alguma forma, diminuídas, atacadas ou simplesmente questionadas, não consegue reconhecer quaisquer abusos ou desmandos, quando ocorrem. Tanto assim que, quando instado a comentar qualquer uma destas circunstâncias, costuma responder que, em qualquer circunstância prefere estar do lado dos polícias e não do lado dos bandidos.
O que, em termos genéricos está correto, porém, levando em devida conta, os casos concretos do Rato e de Odemira, o lado dos “bandidos” é preferível aos dos “polícias”.

Desde tempos imemoriais que a humanidade vive numa charneira de luta constante entre o Bem e o Mal e onde, genericamente, a maioria quer pertencer ao primeiro grupo, condenando o segundo. O problema começa, na definição da bondade e da maldade e, por consequência, termina em quem faz parte de qual. É um aspeto conhecido e escrutinado pelos homens, desde sempre. Não só na mitologia grega e romana como, de forma mais evidente e conhecida, no ocidente, pela própria teologia judaico-cristã. Foi na corte divina, onde por definição apenas terá lugar o Bem, em toda a sua essência e rigor que nasceu a mais pérfida semente maligna de que há conhecimento. Satanás foi um anjo que, pertencendo à elite celestial foi incapaz de honrar o lema e o propósito da mesma, tendo-se rebelado e caído em desgraça, para semear todo o género de malfeitorias.
Portanto, é normal querer pertencer ao grupo da gente de Bem. Onde, queiramos ou não, haverá muitos polícias e alguns “bandidos”. Que não haja dúvidas. O problema reside em quem tem autoridade moral para ir ungindo ou colocando a “marca de Caim” nos potenciais candidatos. Infelizmente não conheço quem o faça de forma justa e adequada. Porém, não me parece que possa ser quem acolhe e promove, no grupo onde está e reclama ser o melhor de todos, pedófilos, arruaceiros, trapaceiros e ladrões de malas em aeroportos.

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